A TEOLOGIA LIBERAL E O FUNDAMENTALISMO COMO DISCUSSÃO ECLESIÁSTICA).
A Teologia Liberal tem suas raízes na Ilustração. No século XIX, porém, ela centrou-se na temática de fé e história. Como é possível continuar a existir cristianismo, se microscópio e telescópio não nos dão uma evidência de Deus? Para responder a perguntas como essa, os liberais concentraram-se, então, em estudos históricos. Como Jesus foi uma figura histórica, é acessível à pesquisa como qualquer outro personagem histórico. Por isso, os teólogos liberais lançaram-se ao estudo histórico-crítico do Novo Testamento para encontrar o Jesus “real”, “verdadeiro” e sua mensagem por trás dos acréscimos da dogmática. Os liberais distinguiram, então, entre a religião de Jesus e a religião sobre Jesus. A fé cristã foi reduzida à mensagem de Jesus sobre o reino de um Deus do amor.
O próprio estudo histórico-crítico da Bíblia levou à destruição da Teologia Liberal. Johannes Weiss (1863-1914) e Albert Schweitzer (1875-1965) evidenciaram em seus estudos que Jesus não era inglês nem alemão, que seu pensamento não equivalia ao pensar e ao agir de um gentleman. Para Weiss e Schweitzer, a partir de uma perspectiva moderna, Jesus não era um gentleman, mas um fanático religioso que esperava pelo fim iminente do mundo.
Mas, antes que despontassem as pesquisas de Weiss e de Schweitzer, surgiram nomes como os de Albrecht Ritschl (1822-1889), Adolf von Harnack (1851-1930) e Ernst Troeltsch (1865-1923). Ritschl esteve sob a influência de Kant e de Schleiermacher. Para ele, o cristianismo é um fato histórico mediado pela experiência pessoal do crer. O Novo Testamento dá testemunho a respeito da revelação que Jesus fez do Reino de Deus, como sendo o alvo ético de todo o gênero humano. Jesus é o arquétipo da humanidade reconciliada e unida no Reino de Deus. A redenção pessoal e a formação de comunidade no Reino de Deus são a consequência da transformação e do retorno da vontade humana à vontade de Deus. Os temas clássicos da dogmática (pecado, juízo, ira de Deus, trindade, cristologia) e as expressões dos credos e das confissões são cascas que encobrem o cerne do Evangelho.
As idéias de Ritschl foram acompanhadas pelo historiador Adolf von Harnack, que pode ser considerado o mais notável teólogo de seus dias. Mesmo sem expres-sar concordância com sua interpretação, devemos considerar magistral seu esforço em tomo da recuperação do pensamento da Igreja Antiga. Harnack advogou um cristianismo nâo-dogmático. Queria um cristianismo liberado dos acréscimos doutrinais feitos pelas gerações que se seguiram à primeira geração de cristâos e que transformaram a religião de Jesus, entendida como o Reino do amor de Deus, em religião acerca de Jesus, um ser preexistente que expia vicariamente os pecados. O cerne do cristianismo está envolto em lixo metafísico. O dogma cristão é obra do espírito grego sobre a base do Evangelho. Esta tese é desenvolvida nos sete volu-mes da História do Dogma (1886-1890). Harnack separa o cerne do Evangelho de sua casca helenista e procura recuperar o cristianismo para seus contemporâneos.
Quando, em 1900, escreveu Das Wesen des Christentums, que podemos tra-duzir por “A Essência do Cristianismo” ou “O que é Cristianismo?”, Harnack procurou tornar o cristianismo plausível para o mundo moderno, reduzindo a fé à paternidade de Deus, à fraternidade do gênero humano e ao valor infinito da alma humana. No prefácio à reedição de 1964, Rudolf Bultmann nos dá conta de que, até 1927, o livro de Harnack alcançara 14 edições alemãs e fora traduzido para 14 idiomas. O livro transpira otimismo e confiança no progresso. Nesse otimismo e confiança, procurou trazer a proclamação bíblica para os dias presentes no início do século XX. O final do livro é significativo:
“Meus senhores. A religião, isto é, o amor a Deus e ao próximo, é que dá sentido à vida; a ciência não consegue. Permitam-me dizer de minha própria experiência. Sou alguém que se ocupou por trinta anos seriamente com estas questões. A ciência pura é algo maravilhoso e ai daquele que a menosprezar ou que deixa embotar em si o senso para o conhecimento! Mas ela não consegue dar hoje resposta às perguntas pela origem, destino e finalidade, assim como não o conseguiu há dois ou três mil anos. É verdade que ela nos dá conta de realidades, desvenda contradições, relaciona fenômenos e corrige os enganos de nossos sentidos e concepções. Mas sobre onde começa a curva do mundo e a curva de nossa própria vida – aquela curva da qual só nos mostra uma parte – e para onde esta curva conduz. Sobre isso a ciência nada nos ensina. Se, porém, afirmamos com firme vontade as forças e valores que resplandecem nos ápices de nossa vida interior como nosso supremo bem, sim, como nosso verdadeiro ser, se tivermos a seriedade e a coragem de deixá-los valer como o real e de orientarmos a vida neles, e se então observarmos o processo da história da humanidade, perseguirmos seu desenvolvimento que se move em direção ao alto e nele procurarmos, esforçados e servis, a comunhão dos espíritos – não incidiremos em tédio e desalento, mas teremos certeza de Deus, do Deus que Jesus Cristo designou de seu pai e que também é nosso pai”.
Esse otimismo de Harnack e sua confiança no progresso tornaram-se sempre mais problemáticos à medida que se foi descobrindo o caráter estranho da mensa-gem bíblica em seu confronto com o mundo moderno.
Quem mais refletiu a relação entre fé e história foi Ernst Troeltsch, citado, mencionado e discutido até o presente. Troeltsch continua atual, pois centrou suas pesquisas na relação entre cristianismo e cultura moderna, entre revelação e histó-ria, entre liberdade pessoal e condicionamentos sociais. Sua obra sobre as rela-ções entre cristianismo e cultura, A Doutrina Social das Igrejas Cristâs, de 1912, é sempre mencionada. Troeltsch historiciza todo e qualquer pensamento. Não há nada que escape ao condicionamento histórico: Senhores, tudo oscila!, dizia a conservadores. Não hesitava em chocar. E chocou até mesmo seus companheiros, que buscavam tirar a casca para chegar ao cerne do Evangelho: Por baixo da casca não há cerne eterno, não-histórico. Tudo o que existe persiste em condições histó-ricas. Ao escrever Die Absolutheit des Christentums (O Absolutismo do Cristianismo), em 1902, Troeltsch comprovou que o labor histórico não pode reivindicar a superioridade de uma religião sobre outra. Troeltsch descobriu que o método histórico, quando aplicado à Bíblia, à História da Igreja e à Teologia, não compro-va revelação nem fé.
A Teologia tinha que reiniciar sua reflexão: o Liberalismo não era a solução. A contrapartida, porém, também não foi solução. Ela se manifestou na reação católica romana, já descrita, e na reação protestante conservadora, conhecida como fundamentalismo. A melhor solução só veio após a Primeira Guerra Mundial.
FUNDAMENTALISMO – DOUTRINARISMO VERSUS TEOLOGIA CRÍTICA
Quem se ocupa com a temática fundamentalismo avança por um território escorregadio. Um movimento religioso, o Reavivamento, confunde-se com um movimento doutrinário profundamente retrógrado, irmão gêmeo do neo-escolasticismo racionalista do século XVII, e primo da escolástica medieval, desde o século XII. Na Igreja Católica tomará o nome de Integrismo, e dominará a estrutura eclesiástica permanentemente (Ratzinger, ou Bento XVI representa essa corrente). No protestantismo denominacionalista derivado da Inglaterra (uma vez que na Europa Continental as nomenclaturas Batista, Menonitas, Reformados, Luteranos, prevaleceram, como identificadores dos grupos protestantes e religiosos históricos), desde a Inglaterra, o movimento fundamentalista encontra sementes soltas ao sabor do vento, nas filiais denominacionais norte-americanas. Quanto mais cresce o caudal da literatura acerca do fundamentalismo, tanto mais difusos se tornam os contornos do conceito e da própria questão. No início do uso do conceito, porém, a situação era outra. Grupos protestantes de cristãos conservadores deram a si mesmos essa designação no início do século XX, nos Estados Unidos da América do Norte. Entre 1909 e 1915, foi publicada nos Estados Unidos uma série de textos, com edição superior a 3 milhões de exemplares, com o título The Fundamentais – a Testimonium to Truth (Os Fundamentais – um Testemunho em favor da Verdade). Do título dessa série saiu o nome de um movimento, formado no último terço do século XIX por grupos de cristâos conservadores evangelicais. Este foi crescendo, principalmente graças ao suporte financeiro de leigos bem estabelecidos.
Os fundamentalistas viam-se como contra-ofensiva a um modernismo que, assim diziam, havia se apossado do mundo protestante. Particularmente, esse fun-damentalismo primeiro entendia-se como contra-ofensiva a uma teologia orientada pelo método histórico-crítico, que estava interpretando os conteúdos da fé, especialmente os textos bíblicos, a partir de uma perspectiva histórico-crítica. O protestantismo, esse o seu pecado, estava se aliando à ciência moderna. Frente a esse modernismo, os fundamentalistas opuseram seus “fundamentais” (fundamentais). Fundamentais eram os conteúdos de fé, verdades absolutas e intocáveis, que deveriam ficar imunes à ciência e à relativização por meio do método histórico.
Foi assim que alguns temas passaram a ser considerados fundamentais: a inerrância verbal, literal, da Bíblia; a afirmação da verdadeira divindade e do nascimento virginal de Jesus, seu sacrifício expiatório vicário, através do seu sangue derramado, e de sua ressurreição corporal; a segunda vinda de Cristo à terra, na época vista como iminente com sinais apocalípticos, ou com o retorno para um reino milenar, intermediário; negativa de aceitação dos resultados da ciência moderna, quando não correspondiam ao que designavam de “fé bíblica”; exclusão do status de verdadeiro cristão de todos aqueles que não aceitavam esse fundamentalismo.
Os fundamentais acima descritos destacam dois aspectos distintos do movimento fundamentalista. No fundamentalismo temos, em primeiro lugar, oposição e reação contra transformações da religião, determinadas pela Modernidade. O fundamentalista quer defender sua verdade religiosa, que se vê ameaçada pelos “poderes” da Modernidade, designados de pluralismo, relativismo, historicismo e destruição de autoridades. Ele não pretende a modernização da religião, mas fundamentação religiosa, explícita, da Modernidade. O mundo ocidental, por exemplo, tem que ser recristianizado. A esse aspecto devemos acrescentar, em segundo lugar, outra característica do fundamentalismo. Ela trata da relação entre religião e política. Os adeptos do movimento fundamentalista estavam convictos desde o início de que a política deveria ser cristã: o mundo ocidental tem que voltar a ser cristão. Nesse aspecto, os fundamentalistas se distanciavam de seus pais quietistas. Em consequência, exigiam que o Estado defendesse, nas escolas públicas, sua concepção bíblico-fundamentalista do ser humano. No estado norte-americano do Tennessee, o professor de biologia Scopes teve que se defender em juízo da acusação por parte de fundamentalistas de que transmitira a seus alunos a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. Bem ao estilo fundamentalista, Scopes acabou sendo advertido pelo tribunal. No caso de Scopes, evidencia-se que, para o fundamentalismo, a verdade religiosa é pressuposto para a ação política. Seu alvo é a sociedade perfeita. Ora, nesse aspecto, o fundamentalismo teve no Syllabus papal um grande companheiro. Ambos são filhos da mesma época.