RECONSTRUÇÕES – Elisa Franchiani

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faixa - gato-Me desconstruo e me refaço a cada instante, passo por mutações constantes, gosto de colagens, recortes de imagens .
Ora mergulho em águas turbulentas, ou flutuo suavemente sem tormentas, num lago de azul grafite. Escalo com esforços sobre humanos, picos íngrimes, desafiadores e num deserto de areias escaldantes me desfaço de mim mesma em meus suores.

Suplico por um prato de alimento e ofereço banquetes opulentos onde o champagne borbulhante em valiosas taças, passa de mão em mão.
Sou rede e cansaço o pecado e o pecador, sou a distância e o espaço, sou o riso e a dor

Sou a pia batismal, a água da vida, sou a mortalha, a urna funerária, começo e fim, cheganças e partidas.
Me escrevo e me apago na areia, me volatizo e condenso, me edito e deleto, sou ao mesmo tempo, pescador e sereia, caçador e presa, escuridão sepulcral e vela acesa.

Sou o chão e a semente, sou o erro e o perdão; o calor que abrasa , a nevasca a geada, sou o raio e o trovão.
Sou a mina e o mineiro, sou o carro, sou o boi, o ferrão e o carreiro, sou a carta e o carteiro, Sou réu e juiz, cantor e canção.

Sou a luz sou as trevas, sou a calma e o tormento, o passado e o presente, sou a moura do rio, a princesa encantada, a terra no cio, semente germinada, sou o fogo e água, sou bruxa sou fada,

Mil pedaços de mim, em cacos de espelho me estilhaço,
Me exumo e fênix, renasço, me abraço, me abraço, me abraço.
Elisa Franchiani

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ELA…

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Ela… Veio chegando de mansinho, assim como brisa leve e trouxe entre seus pertences além da vida pulsante, a alegria a esperança, o sonho bem dobradinho, o sorriso escancarado, a inocência de criança, a coragem e a teimosia e se atreve, a manter pela corrente, o medo, a angústia,a incerteza e deixa uma vela acesa pra espantar a escuridão. Traz guizos, flautas, fanfarras e desatou as amarras que prendem a solidão.
Parece encantamento, um certo quê de magia, esparge perfume e graça, deixa no ar poesia.
Um chamego, uma carícia, uma história de fadas.
Um gosto de pão caseiro,um cheirinho de alecrim, uma canção de ninar, um beijo atirado ao vento, um colo pra descansar.

Elisa Maria Franchiani

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A ORAÇÃO DAQUELE QUE É INTEIRAMENTE DEPENDENTE DE DEUS

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desenho. jesus. semana. der oraç

ORAÇÃO DAQUELE QUE É INTEIRAMENTE DEPENDENTE DE DEUS
“Procure sentir a natureza no ar que respira, em cada respiração, em cada pulsação… Na semente que germina, na planta que nasce, no botão de rosa que se abre… Nas ondas do mar, no barulho das cachoeiras, na correnteza dos rios, no por do sol… No orvalho das manhãs, no amanhecer e no anoitecer, no raio de sol, no clarão do luar, em toda a natureza, em todo o universo… Sinta a presença da (tua) natureza, em tudo e em todos, dentro de você”. Poderia ser um poema cristão, mas não é.

O mesmo terapeuta, que se inspira no culto à Natureza, propondo o restabelecimento da confiança de alguém sem esperança, ensina-o a dizer para si mesmo: “Eu sou meu constante apoio. Eu sou minha saúde. Eu sou minha proteção. Eu sou o perdão. Eu sou a perfeita satisfação de minhas necessidades, e “eu” sou a minha mais alta inspiração. Confio no fluxo da vida, pois sei que ela reserva para mim, sempre, o que há de melhor. Eu sou a Gratidão.

C.S.Lewis, pensador cristão, diria o contrário: “Eu oro porque não sou capaz de me ajudar. Eu oro porque estou desamparado. Eu oro porque a necessidade flui de mim o tempo todo, dormindo ou acordado”.

“Vamos crer em Deus, a intercessão quebra barreiras, remove muralhas, atravessa fronteiras e chega onde há grande necessidade e poucos recursos” (Pastor Bicudo, hippie convertido, pastor em São Tomé das Letras MG).

No mesmo sentido, Elben Lenz Cesar, nos lembraria, observando uma placa na saída da famosa cidade mineira, capital da espiritualidade esotérica no Brasil: “Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador — lugar mais alto, numa sala –, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus”.
(Mateus 5,14-15).
[Observações sobre a reportagem “As Muitas Espiritualidades em São Tomé das Letras”, Revista Ultimato, Maio/Junho 2016; recomendo essa leitura prazerosa sobre o interessante assunto proposto na capa da revista].
Derval Dasilio

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Citação

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Todos os dias começam com a alvorada. Choveu de madrugada, mas o claro da manhã faz tudo acordar ao redor. O galo cantou, e não tem jeito, o dia brota e as fontes continuarão a minar. Logo o céu azula na linha do mar, graças ao sol, e vem para clarear ainda mais o dia. Há sinais de eternidade acompanhando a alvorada. Também no rio que corre sempre para o mar, ou nas ondas que sempre batem nos rochedos, e depois se dissolvem na praia. E nasce o dia. Eternamente.
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Quem conseguiu a serenidade, apesar das agulhas cheias de veneno, atiradas contra nós, das quais temos que nos desviar; apesar dos pesadelos e ingratidões que fazem chorar, e das ilusões incutidas no tempero da ganância, pode alegrar-se com a alvorada. Cartola cantou: Alvorada lá no morro / Que beleza / Ninguém chora / Não há tristeza / Ninguém sente dissabor / O sol colorindo é tão lindo / É tão lindo / E a natureza sorrindo / Tingindo, tingindo / A alvorada… /.

Derval Dasilio

DA ALVORADA AO ENTARDECER DA VIDA

Nota

faixa flores na mata [3]

Tudo parece impossível, se não difícil de explicar, quando se trata de falar do tempo. Como explicar o êxtase, especialmente se for daqueles incomparáveis? Uma felicidade estética é inexplicável, o jeito é senti-la. O mesmo se dá com o tempo. Sentir o tempo é reconhecer a vida num cotidiano de simplicidade. Sem preocupações com o óbvio, posso descrever essa felicidade, quando muito, como sensação de estar ligado a outras existências alcançadas pela contemplação, pela curiosidade, pela ternura e a doçura de visões maravilhosas. Observar as cores de borboletas esvoaçantes, seus movimentos no meio das árvores, buscando o néctar que nunca se esgota, porque é infinito, permite-me gozar com o tempo que me é dado.

Lévinas disse que procuramos alhures a transcendência do infinito, quando de fato o infinito está no rosto do próximo, o ser-humano, o rosto de outro homem – ou de outra mulher –, com os quais já devíamos ter assumido as responsabilidades cabíveis quanto às suas vidas. E às nossas próprias vidas. Estar próximo de Deus e das plenitudes, vendo o rosto do próximo, significa dar sentido à duração do tempo, que talvez nem mesmo exista. Dar sentido à paciência de viver e sorver o tempo como a um vinho velho, em repouso por muitos anos para ficar melhor.

Suponhamos que para penetrar no mistério do tempo tivéssemos que esperar uma brecha numa muralha, ou galgar os muros de uma fortaleza, subir até a torre de onde se veem pradarias, bosques, colinas, córregos, flores do campo. Perguntaríamos sobre a brisa que sopra sobre os lagos, as serras, para depois sumir no mar. O tempo não passa de uma imaginação, como as perdas das coisas que queremos encontrar na noite das memórias, sabendo que não é mais possível uma busca do que nem existe mais. Amores perdidos para os quais nem mesmo adianta deixar a porta aberta. Nenhum deles entrará por ela, porque só a imaginação retira das sombras o que foi, antes, uma grande paixão. Um grande amor.

Derval Dasilio

NÃO ACREDITO NO TEMPO

Nota

faixa ramo com frutos Na velhice, o tempo me adverte sobre as últimas escolhas que devo fazer. Imaginemos que o tempo possa fazer a lua murchar, e que é preciso socorrer o luar, como dizia Tom Jobim, na canção: É preciso gritar e correr, socorrer o luar./Abre a porta pra noite passar,/Olha o sol da manhã./Olha a chuva,/Olha o sol,/Olha o dia a lançar serpentinas./Serpentinas pelo céu, sete fitas coloridas./Sete vias, sete vidas,/Avenidas pra qualquer lugar.

O tempo não impede a chuva de molhar a terra, de encher o rio. De lavar o céu cheio de nuvens negras, e trazer de volta o azul dos dias de sol. O riachinho de água limpa não pode ser impedido de se lançar às águas calmas do rio. O jasmineiro continuará a florir de branco as tardes, mesmo aquelas tardes de Gardel, tardes gris, onde gotas úmidas banham flores perfumadas. As roseiras nem sabem que sua fragrância será exaltada pelos poetas, continuarão a presentear olfatos, mesmo os contaminados pela poluição das cidades sem jardim. O tempo não impede amores puros, nem é dono dos pensamentos dos amantes. Nem impede os passarinhos de passear na calçada molhada, ou saltitarem nos jardins impregnados de primavera.

O sol brilhando e fazendo o céu mais azul, as rochas refletindo os raios de sol com seus cristais, a areia fofa da praia onde enterro meus pés, revelam-me lampejos de eternidade. O sol, o céu, o brilho dos cristais, não dependem do tempo. Duram dentro da eternidade. Sempre estiveram e sempre estarão ali, como contraponto à finitude humana. E só podemos sentir gratidão por sermos humanos e poder contemplar essas realidades enquanto estamos participando das mesmas, observando algo que está fora do tempo. Tudo isso nos oferece a sensação da eternidade. A permanência das coisas belas estimula a vontade de contemplar ainda mais o que nos é dado ver, sentir e gozar, enquanto nos aproximamos ainda mais do infinito.

Guardei no baú das memórias as canções que ouço José Carreras cantar. Ouvi Carreras e Kiri Te Kanawa, hoje, cantando Gershwin, Hammerstein, Rogers, Cole Porter, com os olhos umedecidos pelas lágrimas da saudade: “Tenho um sonho, eu nunca perdi o sonho que tenho. /Meu coração conserva doces visões. /É como uma luz intensa que brilha na escuridão das tormentas, /Luz que me guiará para sempre. /Fecho meus olhos, sinto você novamente / Quando sonho, eu sonho, quero continuar sonhando com você. /Desejaria ser também o seu sonho… /Como gostaria de ser seu sonho. /Sonho. Sonho cada dia, e você está perto deles. /Memórias foram semeadas e renascem, quando sonho com você, /Desejaria que o sonho durasse para sempre. /Toda vez que fecho meus olhos eu sei que você está ali /Então, de novo, sonho com você (Trad. livre: Dream in my heart).

Mas o tempo alerta para as escolhas que devo fazer, em minha velhice. Uma delas é não acreditar no tempo, mas usá-lo com prazer. Desse modo não penso na finitude, nem em escatologias. Assim, posso sentir a infinitude das coisas. Contemplar a eternidade das coisas belas é um caminho bom para ser feliz, e para antecipar a plenitude da vida.

Comparo a sensação de vácuo do tempo ao prazer indescritível de estar no meio das plantas, num bosque, em meio a árvores que brotaram, tantas vezes, mais de um século atrás. Cheirar o húmus por toda parte, ver orquídeas selvagens enlaçando os troncos onde se hospedou um dia uma semente trazida por uma ave qualquer. Ver e ouvir os pássaros que ali construíram seus ninhos, e depositaram ovos que fizeram eclodir novos pássaros sem interferência do tempo. E ouvir seus sons diferentes, do nascer do sol ao entardecer. Assim, posso contemplar o infinito, e concordar com Emmanuel Lévinas: é de Deus que vem a ideia do infinito e da eternidade.

Derval Dasilio .

O TEMPO É UMA ADVERTÊNCIA

CURTAS [6] – A ORAÇÃO DOS ATORMENTADOS

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OS SEGREDOS DA NOITE INSONE
A sede de vida aplaca-se durante a noite, mas a solidão diurna, mesmo depois da alvorada, se estende como afluente dos rios de sol.  Aprendemos, no entanto, a não ter medo da noite, nem dos ventos em constantes mudanças. Nada melhor que um dia novinho, despidos os segredos da noite, aprontando novas esperanças, novos enredos e novos capítulos de nossas vidas. Um dia novo é como um esteio que segura o teto do mundo para que ele não caia sobre nossas cabeças. Melhor, um novo dia é como um murmúrio de esperança. Depois, vem aquela tarde cantada por Vinícius de Morais, em sua longa temporada na Bahia:
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É bom passar uma tarde em Itapuã/ Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã/ Falar de amor em Itapuã / Enquanto o mar inaugura/ Um verde novinho em folha […] /Passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã /Depois sentir o arrepio / Do vento que a noite traz / E o “diz-que-diz-que” macio (do baiano)/ Que brota dos coqueirais / E nos espaços serenos / Sem ontem nem amanhã / Dormir nos braços morenos / Da lua de Itapuã /É bom passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã. 

[] A ORAÇÃO DOS ATORMENTADOS []
Somos condenados à aflição, transtornos e inquietude permanentes, porque oramos em favor de nós mesmos, e nunca conseguimos satisfazer anseios mais profundos sem Deus. Destinados a caminhar por toda a vida, “porque a cada caminho percorrido surge outro para percorrer” (Agostinho), não podemos parar, nem nos abster, porque um imperativo categórico empurra sempre para a frente, não nos deixando em paz, empurrando-nos para uma odisseia que não vai acabar nunca. Enquanto não há um ato libertador, o Espírito é um vento bravo que não cessa, na direção de uma “terra prometida” que parece nunca chegar. Um ser humano é um arco retesado com a flecha apontando para estrelas inatingíveis, disse alguém, com extrema sabedoria.
*
O desconhecido seduz, por isso o ser humano rompe barreiras e irrompe em regiões ignotas. Gosta de decifrar enigmas, e de preencher espaços vazios, sem saber por quê. Sempre atormentado, vive na inquietude, nunca se acalma. Forças incompreensíveis o arrastam para o infinito, enquanto busca o absoluto, completo, acabado em definitivo. Por isso, pensa sobre si mesmo, e sobre as razões de sua existência, sempre procurando respostas para as perguntas de um questionário que nunca chega ao fim. É preciso orar, e descansar na espera de Deus. Não posso duvidar. Se duvido, mergulho no desespero e me sujeito ao pior dos infernos, que é a desesperança.
Derval Dasilio
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Há na ideia do perdão algo além do simplesmente humano. O impossível age no processo de um  perdão incondiscinal, uma vez que o perdão que perdoa o imperdoável é um perdão impossível. Ele faz o impossível, proporciona o impossível, perdoa o que não é perdoável (Jacques Derrida).

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [1]
Mesmo que existam objeções à pergunta sobre Deus, não há como negar uma espiritualidade profunda, como na obra musical de Johannes Sebastian Bach, onde se constata uma dimensão da existência que extravasa uma inspiração de grande importância, que remete a um mistério inigualável. Inspiração procurando alcançar na  beleza perfeita aquilo que podemos chamar de Deus. Rubem Alves disse, uma vez: “fora da Beleza não há salvação”, contrariando o que fora dito anteriormente: “fora da Igreja não há salvação”.

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [2]
O extraordinário arquiteto Daniel Libeskind, judeu, não religioso,  perguntado se existem cargas de espiritualidade, onde Deus estaria implícito, respondeu que considera óbvio, iniludivel, que a compreensão da espiritualidade na busca da Beleza, está nos grandes nomes da arquitetura, mesmo entre os considerados “hereges”, com Gaudi e Le Corbusier. Van Der Rohe era um “místico” que mantinha os textos de Tomás de Aquino e Santo Agostinho, obrigatoriamente, em sua cabeceira. Todos eles trazem fortes elementos de espiritualidade. Os monumentos grandiosos que construíram comprovam que a liberdade e a espiritualidade orientam suas obras. Elas são desprovidas da mediocridade repetida na cópia do já existente.

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [3]
A fé poderia ser um estímulo para a religião. Refiro-me à fé na liberdade. Ter Deus no centro da história das religiões não significa que as palavras certas sobre a espiritualidade da existência estejam em seu propósito. Não se pode dizer que a religião representa a liberdade e a busca do mistério da beleza perfeita. Infelizmente, a aspiração religiosa, em muitos momentos, parece ser a de colocar Deus como um álibi  para outros fins muito menos nobres que a busca da liberdade e da beleza. Mas, inegavelmente, por isso mesmo, devemos à religião a liberdade de duvidar que ela representa o que diz representar, em termos de convicções absolutas.

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [4]
Os riscos terríveis para a fé e a liberdade, nos últimos anos, se apresentam em demonstrações sucessivas  de que a religião cristã, por exemplo, vem percorrendo um caminho entortado  no rumo da liberdade e da beleza ética. O grande valor da religião, no sentido da liberdade e da ética é substituído pela trivialidade e superficialidade do materialismo religioso autoritário contra a espiritualidade que a mesma representaria. Comparemos uma obra de arte destacada como  valor espiritual permanente da beleza — uma ária do oratório Paixão Segundo S.Mateus, de Bach por exemplo. Comparemos a arte sacra que perpassa a história da religião cristã com um balcão de negócios do “gospel business“, onde se vendem bugigangas ditas como louvor abençoado, justificando atos que podem ser qualquer outra coisa, menos atos de beleza estética de fé. Aí se encontrará um perigo de destruição da fé.

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [5]
No sentido profundo proposto na busca da beleza e da espiritualidade, o conflito, a violência e o sofrimento, deste modo, são inevitáveis. Porque a fé é desviada em seu sentido libertário, enquanto é destronado o prazer e a felicidade do encontro com a beleza. Alguém já disse que a busca da liberdade não significa apenas ser livre de alguma coisa, mas ser livre para alguma coisa mais importante. A liberdade de crer  em Deus nunca seria a simples sujeição a princípios religiosos, mas a busca dos grandes valores espirituais propostos na religião que se envolve com a liberdade e a beleza.

Derval Dasilio

[CURTAS 5] OS SEGREDOS DA NOITE INSONE

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OS SEGREDOS DA NOITE INSONE
A sede de vida aplaca-se durante a noite, mas a solidão diurna, mesmo depois da alvorada, se estende como afluente dos rios de sol.  Aprendemos, no entanto, a não ter medo da noite, nem dos ventos em constantes mudanças. Nada melhor que um dia novinho, despidos os segredos da noite, aprontando novas esperanças, novos enredos e novos capítulos de nossas vidas. Um dia novo é como um esteio que segura o teto do mundo para que ele não caia sobre nossas cabeças. Melhor, um novo dia é como um murmúrio de esperança. Depois, vem aquela tarde cantada por Vinícius de Morais, em sua longa temporada na Bahia:
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É bom passar uma tarde em Itapuã/ Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã/ Falar de amor em Itapuã / Enquanto o mar inaugura/ Um verde novinho em folha […] /Passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã /Depois sentir o arrepio / Do vento que a noite traz / E o “diz-que-diz-que” macio (do baiano)/ Que brota dos coqueirais / E nos espaços serenos / Sem ontem nem amanhã / Dormir nos braços morenos / Da lua de Itapuã /É bom passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã.
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O por do sol, porém, termina a farra de cachaça de rolha com água de côco, que o poetinha amava. A noite se aproxima, passado futuro povoarão os sonhos da noite. Mas há, na noite, o consolo das coisas que não envelhecem jamais, como o amor. Tenham sido o que foram, os sonhos do passado estão presentes, mesmo que os espinhos e caminhos tortuosos não tenham permitido suas realizações.
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SE O SOL VAI DESAPARECER…

O sol vai anoitecer lenta e pacificamente, também, daqui a uns 6,5 bilhões de anos. A nuvem de gás chamada de protoestrela, ou primeira luz no Universo, que agora produz energia e calor em expansão constante, se extinguirá. Por que queremos ser eternos, se o sol que aparece todos os dias na nossa janela vai desaparecer? O entardecer já nos prepara para a noite eterna, reservada a toda a criação. O fotógrafo austríaco Edgar Moskopp passou seus dias retratando pores-do-sol pelo mundo. Mas o gaúcho de Porto Alegre garante que não há pôr-do-sol mais bonito do que aquele que se estende além do lago de água doce, que é o Guaíba.

Falando sério, no entardecer da vida não cabe a saudade. Nem é preciso mais pedir perdão porque gozamos a vida, sorvendo cada tempo de felicidade que nos foi dada. Se a vida não foi tão aproveitada, não adianta mentir. Quando chegamos já chegamos partindo, ou preparando a bagagem para uma nova viagem. Com o amor. O amor é cheio de compaixão e gratuidade, como uma flor que esparge perfume; como o sol que não depende de uma janela especial –  assim pensavam os antigos –, aberta no céu para brilhar e espargir sua luz; como o orvalho que cai nos gramados, arvoredos e flores durante a noite, sem autorização de ninguém.

A noite começa, o corpo sozinho é imerso na solidão impossível de evitar-se, pois o sono é prelúdio da morte, como disse Shakespeare. Fez-nos antecipar a solidão anunciada por Heidegger, quando disse: “o homem é um ser destinado à morte”. Sozinho. O filósofo disse também que a única propriedade que possuímos é a morte. Logo, temos um caminho de solidão sendo percorrido, até  que tomemos posse da solidão final.
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TOM ZÉ LEMBROU: TUDO QUE SOBE DESCE…

A plenitude é o topo do cume mais elevado que galgamos em nossa vida, a realização total de nossa humanidade. Porém, no fim da vida, todos voltamos ao horizonte das planícies. Desencantos ficam para trás, como as madrugadas e os alvoreceres. Tom Zé cantou muito bem: Tô bem de baixo prá poder subir / Tô bem de cima prá poder cair / Tô dividindo prá somar depois/ Atrás da vida pra poder morrer. Enfim, anoitece, vamos partir na boca da noite. O dia não precisa de autorização para ir embora ao fim da tarde. Nós também não precisamos de autorização para partir. “O homem é um ser habitado por um desejo infinito que só o Infinito pode preencher”, disse alguém. Por isso buscamos a plenitude nos lugares mais altos do espírito. Mas devíamos estar conscientes de que é a terra que nos acolherá, no final.

DEUS COMO EXPRESSÃO DA ALMA PROFUNDA [*][*][*][*][*][*]

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Gaston Bachelard lembrava: é preciso descer ao fundo do ser, sem preocupar-nos com a tagarelice da dúvida. A alma em devaneios antigos e recentes emerge das profundidades, reconciliando o passado com o presente. Quanto mais profundo é o ser, mais luzes serão necessárias para iluminar os abismos da existência. Citando Henri Bosco, disse também: “para exprimir a alma profunda do ser, me vinha a ilusão de não mais encontrar-me no mundo real, composto de limo, pássaros, plantas e arbustos vivos, no próprio seio da alma, cujos movimentos e calmarias se confundem com minhas variações interiores”.

Ocorreu uma coisa com o profeta Elias, que procurava intensamente a experiência de Deus, orando. Então, uma voz lhe falou: “Sai de onde estás e coloca-te diante da montanha. Um terrível furacão deslocava a rocha e quebrava os rochedos,  mas Deus não estava no furacão. Depois, houve um terremoto que abria fendas no solo, mas Deus não estava no terremoto. Em seguida, um incêndio de grandes proporções, mas Deus não estava no fogo. Depois do fogo soprou uma brisa mansa, cuja suavidade era incomparável. E, então, lá estava Deus”.
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A história sugere que Deus é um sopro leve e suave, na experiência que alcançamos de sua bondade, ternura, misericórdia e cuidado. Sugere coisas importantes para a nossa espiritualidade, tantas vezes submetida a furacões, verdadeiros terremotos, os quais abalam nossas estruturas a ponto de fazer-nos sucumbir. Incêndios que parecem devorar-nos a alma e o ser, ameaçando nossa integridade total.

Com paciência, poderemos observar que os mesmos estrondos que uma peroba de 30 metros faz ao ser derrubada, em segundos, é o contrário do silêncio da floresta que demora séculos para formar-se. Em segundos, um barulho ensurdecedor. Em séculos, um silêncio que abriga gerações de pássaros; de árvores, flores e frutos. Um silêncio que faz crescer o respeito à natureza, o amor à beleza. Principalmente, na humildade diante do infinito e das coisas eternas. Devemos sentir-nos como parte dessas realidades.

Derval Dasilio


DEUS PULSA NO CORAÇÃO DE QUEM AMA

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 “Deus é uma suspeita de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso”. Imaginamos… não temos uma confirmação.  Mas os caçadores inventaram gaiolas. O pássaro preso na gaiola acaba empalhado, para confirmar, morto, a imagem do pássaro que ele foi um dia. Vira ídolo (como divindades religiosas do antigo Egípcio com cabeça de passarinho).  São as prisões religiosas ou doutrinais sem as quais carcereiros fundamentalistas e ortodoxos “certinhos” não sobrevivem. E tudo o que vive é pulsação de um coração sagrado. As aves dos céus, os lírios dos campos… até o mais insignificante grilo, no seu cri-cri rítmico, faz a música do Grande Mistério.  Sabem que Deus é o grande coração do universo. Deus é puro amor e beleza e justiça.

É preciso esquecer os nomes de Deus, para entendê-lo. Você vê a beleza ao redor, Deus está ali. Tudo que é belo – como o amor à justiça, à ética do cuidado, aos direitos humanos; ao carinho, à bondade, à solidariedade, vem de Deus. Tudo que é feio, coisa que causa horror e temor, símbolo de castigo e violência, o preconceito, a discriminação, a injustiça, o esforço para submeter as pessoas, o abandono dos fracos e dos necessitados, é contra Deus. Isso é o retrato, na verdade, da nossa humanidade.

Se alguém gosta de um “deus” feio vai torná-lo feio. Mas Deus amou o mundo, apesar da feiúra dos nossos costumes; quando o descrevemos conivente com os horrores do nosso mundo; quando fazemos dele a nossa imagem tenebrosa… O deus feio, nojento, raivoso, cruel, que está na violência, na miséria, nas desigualdades, na fome, nas doenças que podemos curar e não curamos, é criação humana. O egoísmo em não aceitarmos repartir a vida melhor em solidariedade e cooperação com os que sofrem faz parte desse retrato feio de Deus.

Quem disse que “a reverência pela vida, a generosidade, a misericórdia, a compaixão, a solidariedade, são a forma mais alta de oração e reconhecimento de Deus” merece o nosso respeito. Disse-o muito bem. Muitas pessoas que jamais pronunciam o nome de Deus o conhecem, por terem reverência pela vida, por cultivarem as formas de amor ao próximo e ao distante espontaneamente. E não porque um doutrinador sistemático lhe ensinou.  

Há também pessoas que procuram um Deus no mundo invisível, após a morte, um “céu” imaginário, sem graça, tudo azul, para se viver eternamente. Devem estar enganadas, porque isso é egoísmo religioso! Querem um céu só para si, os outros que se danem. Mas Deus não está no céu, está aqui. E nenhuma religião tem a chave ou a senha do portão do céu, como pretendem alguns. Além disso, é impossível aprisionar Deus nos arquivos, nas confissões, e nas doutrinas sobre “deus”.

Deus é beleza de sentimentos, de atitudes, no olhar de quem sabe amar” (Xico Esvael escreveu uma linda canção, com essa frase). Por isso ele ama os desertos e também seus oásis e  florestas. Porque é aí que se escondem as fontes da vida. Quer ver Deus? Veja a beleza do sol que se põe no entardecer, no verão. Não pense. Você quer ouvir Deus? Ouça a “Sonata ao Luar”, de Beethoven . Entregue-se à beleza da música, sem pensar. Quer sentir o cheiro de Deus? Vá para o jardim mais próximo e respire fundo o cheiro das flores, das árvores, não pense no formato das pétalas, nem se as flores têm espinhos; não pense na altura das árvores, goze a sua sombra.

É assim, desse jeito, que você sente a existência profunda de Deus. E “Deus amou este mundo de tal maneira que deu-nos seu Filho”, para que crêssemos  nele. E Jesus apresenta-nos o melhor desenho de Deus que conhecemos: o amor deve governar o mundo… deixem a misericórdia e a justiça deslizar como córregos, águas cristalinas entre as pedras…  Jesus, sim, torna  Deus visível, como apontava o profeta do Israel antigo. Visível no olhar de quem ama a justiça, como Xico Esvael cantou. Tudo que descrevemos aqui, como sentimento de Deus, reflete Jesus e sua entrega amorosa… “porque Deus amou o mundo”, e continua a amá-lo, e a amar-nos, através de Jesus. Está escrito no Evangelho: “Este é o Filho da minha alegria”. Quem precisa de mais?

Derval Dasilio

Livro no prelo: …Minha morte morrerá comigo | Testamento de um filósofo


 

FALANDO DE DEUS E ERRANDO FEIO…

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Perguntaram a Rubem Alves: Qual seria a sua resposta se uma criança de dez anos de idade lhe perguntasse o que é fé? – “Usaria uma metáfora poética para dizer o que é fé. Fé é aquilo que uma pessoa que voa de asa delta tem de ter no momento de se lançar no espaço vazio, do alto. Sem medo. Ter fé não é acreditar em seres do outro mundo, anjos, céu, inferno e nem mesmo no ‘deus’ que sai da boca dos homens. Ninguém precisa do diabo para acreditar em Deus. Fé é uma atitude perante a vida, intraduzível em palavras. Sobre essa confiança nos lançamos às incertezas. A fé só existe diante do abismo das incertezas”. Incerteza não é dúvida.

Podemos entender Deus, quando o vemos separado de todas as imagens construídas sobre o que não se pode dizer, porque não há palavras ou línguas sagradas que possam defini-lo. Nem a Bíblia!, onde os escritores apresentam Deus de muitas maneiras, conforme suas crenças: ora nos poemas de fé, ora na boca de contadores de histórias ancestrais, ora pelos profetas, ora pelos sacerdotes, ora pelos guerreiros sanguinários que não hesitaram em exterminar velhos, mulheres indefesas, crianças, para tomar terras e riquezas de outros povos… São modos e crenças para descrever Deus conforme suas necessidades. Porém, todas as vezes que lidamos com a beleza, a misericórdia, o amor e a bondade, estamos lidando com o nome sagrado de Deus. Na Bíblia, os evangelhos são mais claros, quando Jesus descreve-o como a realidade acima de todas as realidades.

Dizer que Deus é um espírito imutável, símbolo de poder, de sabedoria, de santidade suprema, falar que Ele é a verdade, que é onipresente, onisciente, é o jeito humano de desenhar uma imagem, apenas. Alguns desenham essa imagem como um juiz implacável, ou como um tirano torturador de chicote na mão; outros o desenham como um velhinho sentado num trono celestial mandando anjos fazer o serviço de segurança e proteção de cada um de nós; e outros, como um pai amoroso, complacente, que sempre tira por menos as estripulias dos filhos desobedientes. Pois é, nós apenas desenhamos o que pensamos. Nada tem a ver com a experiência das pessoas sobre o que realmente Deus deveria ser para elas. Nunca vi um desenho que mostre Deus solidário, em fraqueza, sofrendo diante da imensa maldade praticadas pelos homens e mulheres. Desculpe, minto… através do próprio Jesus, que conhecemos muito bem como o filho, o evangelho fala muito bem do Pai que sofre e chora com os sofredores, sentindo as dores do mundo. Estou com Jesus e não abro. Ele o chamou de Painho, como se fosse um baianinho lá de Caculé. Quer dizer, Deus é justo e terno ao mesmo tempo.

Uma velhinha de voz trêmula, pele cheia de rugas pediu a um sábio que era ouvido por um grupo: “Fale-nos sobre Deus…”. Fez-se silêncio. Olhou para o vazio. Vagarosamente, um sorriso foi-se abrindo no rosto do apóstolo. “Quantas pessoas aqui na minha tenda estão pensando no ar?”, ele perguntou. “Por favor, levantem uma mão…” Ninguém levantou a mão. Ninguém está pensando no ar. Ninguém nem sabe direito o que é o ar. E, no entanto, todos nós o estamos respirando. O ar é a nossa vida e não precisamos pensar nele e nem dizer o seu nome para que ele nos dê os cheiros e os sabores da vida (Rubem Alves, “Perguntaram-me se acredito em Deus”, 2010). Só quem duvida utiliza os desenhos sobre Deus.

A dúvida sobre a existência de Deus é como uma onda vista de longe, no mar. Mansa à distãncia… pouco a pouco ela se aproxima. E de repente é um monstro espumante, babando, capaz de cobrir alguém e sufocá-lo. Alguém que se afoga em dúvidas só pensa no ar. Deus só é assim, sufocante, para quem duvida. Não é preciso pensar nele e pronunciar o seu nome. Ao contrário, quando se pensa nele o tempo todo é porque está se afogando nas ondas da dúvida…  “Deus é como o vento”, disse João. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai.

 

MAIS CURTAS… [5]

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[*][*][*]  DEUS COMO EXPRESSÃO DA ALMA PROFUNDA [*][*][*]
Gaston Bachelard lembrava: é preciso descer ao fundo do ser, sem preocupar-nos com a tagarelice da dúvida. A alma em devaneios antigos e recentes emerge das profundidades, reconciliando o passado com o presente. Quanto mais profundo é o ser, mais luzes serão necessárias para iluminar os abismos da existência. Citando Henri Bosco, disse também: “para exprimir a alma profunda do ser, me vinha a ilusão de não mais encontrar-me no mundo real, composto de limo, pássaros, plantas e arbustos vivos, no próprio seio da alma, cujos movimentos e calmarias se confundem com minhas variações interiores”.

Ocorreu uma coisa com o profeta Elias, que procurava intensamente a experiência de Deus, orando. Então, uma voz lhe falou: “Sai de onde estás e coloca-te diante da montanha. Um terrível furacão deslocava a rocha e quebrava os rochedos,  mas Deus não estava no furacão. Depois, houve um terremoto que abria fendas no solo, mas Deus não estava no terremoto. Em seguida, um incêndio de grandes proporções, mas Deus não estava no fogo. Depois do fogo soprou uma brisa mansa, cuja suavidade era incomparável. E, então, lá estava Deus”
*
A história sugere que Deus é um sopro leve e suave, na experiência que alcançamos de sua bondade, ternura, misericórdia e cuidado. Sugere coisas importantes para a nossa espiritualidade, tantas vezes submetida a furacões, verdadeiros terremotos, os quais abalam nossas estruturas a ponto de fazer-nos sucumbir; incêndios que parecem devorar-nos a alma e o ser,ameaçando nossa integridade total. Com paciência, poderemos observar que os mesmos estrondos que uma peroba de 30 metros faz ao ser derrubada, em segundos, é o contrário do silêncio da floresta que demora séculos para formar-se. Em segundos, um barulho ensurdecedor. Em séculos, um silêncio que abriga gerações de pássaros; de árvores, flores e frutos. Um silêncio que faz crescer o respeito à natureza, o amor à beleza. Principalmente, na humildade diante do infinito e das coisas eternas. Devemos sentir-nos como parte dessas realidades.
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UM GUIA PARA A AVENTURA NO INTERIOR DA ALMA HUMANA
A aventura interior nos faz lembrar da presença do Pai de todas as coisas, em tudo que nos cerca. Aprendemos que não podemos transferir indefinidamente o que nos faltou desde que nos tornamos conscientes de nós mesmos no mundo. Neste momento podemos sentir o quão importante é compartilhar a realidade do outro ser, do todo, e de Deus, que é a maior das realidades. Deus é uma grandiosidade acima de qualquer grandeza. Não podemos encher-nos de grandeza, envolvidos pela megalomania da razão, diante da realidade maior, que é o Pai de toda a criação. A palavra de Jesus ensina: “aprendam a observar estas coisas, comigo, que sou manso e humilde”.
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O que um budista indiano chama “ahimsa” um israelita bíblico, como Jesus, chamaria de “rahamim”. É a mesma atitude de compaixão, originalmente “não-machucar” o outro. Uma atitude que se sobrepõe à vontade de dominar o outro a qualquer custo, pisar no pescoço de alguém para passar à frente, entrar na realidade do outro para dominá-lo. O hebreu usa a palavra “rahamim” (“ter sensibilidade, sentimentos”, “ter entranhas”, “ter coração”: o coração é sede dos melhores sentimentos, pensa o israelita bíblico), para identificar a compaixão de Deus pelo oprimido, pobre, aflito, despojado, sem-posses, sem-nada. Deus vê seus filhos com extremo cuidado, acolhendo-os sempre com amorosa compaixão.
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Os planos do ser-pessoa são diferentes, por si mesmos, em suas variedades, manifestações, diferenças e diversidades. É preciso reconhecer a beleza do ser em si mesmo, e respeitá-lo. Ser unido com o Pai, como Jesus disse (“onde eu estou, quero que vocês estejam”), passa a ser o mais importante que tudo. Isto é, como disse Jesus, “eu e o Pai somos um, e vocês devem ser unidos conosco, nos gestos e nas atitudes”. Jesus quis compartilhar as qualidades paternais de Deus com seus irmãos, que somos nós, no relacionamento com todos os outros, indistintamente, sejam quais forem aqueles outros.
Derval Dasilio

CURTAS – DE ANNABEL A EVA – MEDITAÇÕES

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MEDITAÇÕES –
EVA NASCEU… BEM-VINDA, MINHA NETA
Acabávamos de ganhar mais uma neta. Seu nome é Eva. Ora, é o nome da primeira mulher, saudada como “mãe de todos os viventes”, nas Escrituras hebraicas. A vida é um presente de Deus. Galgar aos céus, mergulhar no infinito, descobrir o que está por trás das estrelas… é tudo que desejamos. Queremos ser felizes com a vida… Importantes pensadores, em todos os tempos, destacaram essa busca de sentido que está no ser humano, homem e mulher; queremos descobrir, desvendar o eixo em torno do qual nos movemos internamente.
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Que motor faz girar esse eixo? Para muitos, trata-se de uma dinâmica interior, profunda. Seria a afirmação da vida imortal, sobremaneira. Princípio de frustração. Transcendência duvidosa. Não é possível manipular a realidade a nosso favor, quando se trata das potencialidades que o desejo aponta, na direção do infinito.
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Como negar que nosso corpo já começa a fenecer, finitos que somos, limitados, desde o dia em que nascemos. O desejo de plenitude, ser um ser humano completo, é o apelo profundo de nossa interioridade.
Derval Dasilio
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UM SALMO PARA EVA, MINHA NETA
Cada um de nós é um Adão e uma Eva, encantados com os mistérios da “árvore do conhecimento”, mas a árvore que está no meio do Paraíso é a “árvore da vida”. Então, toda felicidade, bem-estar, prazer de viver, já nos indicaria a plenitude que pretendemos alcançar, que pode e deve começar aqui. É isso que minha neta evoca, no seu nascimento. Talvez seja isso que o primeiro Salmo da Bíblia queira nos apontar: a vida como uma árvore plantada à beira do riacho será bem alimentada, capaz de crescer e dar bons frutos.
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O Salmo 1 é um discurso lindíssimo da poesia hebraica que convida a observar a Criação e o sentido da felicidade desejada, quando nasce uma criança.  Seres cósmicos, do grande universo, aparecem personificados no cotidiano humano com dinamismos sobre humanos. Que significa uma árvore forte, bem plantada, produtiva, senão uma vida harmonizada com o sentido das coisas do universo, desde a terra aos espaços estelares ainda não alcançados, embora sondados pela curiosidade do conhecimento?

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RAÍZES DA ALMA QUE AFUNDAM NA TERRA
Uma árvore plantada ao longo de um córrego de águas limpas não é uma árvore plantada à beira do abismo, em terreno arenoso ou sujeito a deslizamentos destrutivos.   As imagens poéticas nos remetem a símbolos inescapáveis, fundados no chão da vida. São símbolos (symbolos = o que une, no grego) daquilo que nos dá força para vencer tempestades, furacões, terremotos, que poderiam abalar nossa busca de plenitude.
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As raízes dessa árvore se afundam na terra, mãe de todas as coisas, impedindo com sua força que a destrutividade dos acontecimentos desagregadores da vida nos esmaguem ou nos arranquem do solo onde fomos fundados. As raízes estão fincadas, bem seguras, são fundamentos da Sabedoria (um dos vários nomes de Deus nas Escrituras).   A copa é voltada para as estrelas, os espaços siderais infinitos, do cosmos, do universo, do mundo. Os ramos, a folhagem, agem absorvendo as energias da natureza que nos é dada, o orvalho, a chuva, o sol que sazona os frutos.
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Enfim, estaremos bem plantados no universo enquanto nos mantemos abertos para todos os céus possíveis (como diria o evangelista Mateus); a vida aberta, portanto, para o infinito. O poeta bíblico chamaria essa disposição de desejo de plenitude, vida plena, completa, com todas as formas de bem-estar que cabem à dignidade do homem e da mulher, começando na criança que rompe no seu primeiro amanhecer.
Derval Dasilio

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A MÃE ANCESTRAL DE TODOS VIVENTES
Bem-vinda, Eva, minha neta. Nossa mãe ancestral — como também sua avó que nos deixou antes de você nascer –, traz no nome o peso da maternidade da vida que agora lhe cabe viver. Nós te recebemos na força da vida, e te amaremos por todos os motivos. A primeira madrugada da vida que alvorece em teu nascimento nos remete aos primeiros dias da humanidade com a mãe da vida concedendo-lhe o empréstimo que nunca vai cobrar, na escolha de seu nome. A primeira memória da vida está na infância cósmica de Eva.
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Nossa neta sempre nos lembrará da Fonte da Vida, da qual a “mãe de todos os viventes” bebeu. Nenhum acontecimento nos afastará do maravilhamento sobre a criança que chega, com seus significados ancestrais mais puros. Obrigado, meus Deus, porque podemos contemplar mais um dos teus inúmeros milagres.
Derval Dasilio

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A poesia do mundo inteiro nos olhos de Annabel

Quando Annabel, minha netinha nasceu, pensei: como vou lhe explicar a grandeza e os mistérios profundo do amor e  da beleza e da criação, se eu mesmo não sei o significado da palavra Deus e o tremendo mistério da vida? Olhando seus olhos azuis, que contemplarão o fulgor da luz, as miríades de cores e formas existentes, o brilho das estrelas. Seus ouvidos logo ouvirão os sons do universo, desde o canto dos pássaros aos ornamentos barrocos da música de Bach que amamos tanto. Olavo Bilac já dizia: “ora direis ouvir estrelas…”.  Mas sei que todos os mistérios  do mundo se escondem nesses olhos recém-iluminados pela vida inventada pelo Criador.

O poeta inglês Willian Blake disse certa vez que o mistério da vida poderia estar num simples grão de areia, e Rubem Alves sugeriu que simples gotas de orvalho, repousando numa flor, oferecem a visão do universo inteiro. Pensar no que os olhos de uma criança nascitura poderá contemplar é também pensar no  que ela mesma significa entre os seres criados. O mistério do homem e de Deus e suas grandezas originais, nas realidades que compõem o mistério do próprio Universo em todas as probabilidades, nasce com o bebê que ao ver a luz já emite o berro primal, reclamando: “qual é o meu lugar nesse mundo”?

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A TERRA É UM PLANETA BEM IDOSO
A natureza na Terra é esplêndida, maravilhosa. Há alguns anos atrás, estudos definiram o átomo como a menor molécula existente. Hoje há outras definições. Comparando-o a um estádio, todo o espaço entre o núcleo e as arquibancadas seria vazio, oco. Não há nada ali.  E tudo que existe é formado por milhares ou trilhares de átomos condensados ou compactados. Ou seja, tudo o que os olhos podem ver, na verdade é uma junção de bilhões de “nadas” juntos, tornando-se em alguma coisa. Essa é a base da Física Quântica; todas as probabilidades. Um universo de possibilidades ilimitadas. Contudo, “o que não é”, o misterioso, sempre se apresenta em números e valores maiores  (Davy Rodrigues).

Há os que  dizem que a Terra teria cerca de 4,6 bilhões de anos. Mas a história natural do planeta e sua geologia é muito mais complexa. São processos que levam bilhões de anos, juntamente com o processo de outros planetas. Surgem estrelas novas a cada momento. Estrelas antigas, extintas, ainda deixam seu brilho em bilhões de anos-luz percorrendo o espaço. O Universo é múltiplo, plural, rico em detalhes, além de estenso e ainda encontrar-se em expansão. De fato, está ficando cada vez maior. Astrônomos perscrutam o espaço sideral e acreditam que o Universo está se expandindo;  que todos os pontos do Universo estão ficando mais distantes uns dos outros à medida que o tempo passa. Não é que as estrelas e galáxias estão ficando maiores, na verdade o espaço entre todos os objetos é que está se expandindo com o tempo.
Derval Dasilio
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PARAÍSOS SÃO SEMPRE SONHADOS ANTES
Aqui nos deparamos com o destino humano, perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. Sonhamos com paraísos, construímos utopias. Como os sons e as tonalidades do Universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude. Paraísos são sempre sonhados para serem realizados.
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Paraísos são a Esperança. Precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está nos olhos da minha neta recém-nascida. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.
Derval Dasilio

OUTRAS CURTAS [CARTAS- AMOR E ÓDIO]

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AMOR E ÓDIO SÃO NOMES DOS CÃES DO INFERNO
Viver sob o signo do ódio é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro. Como duas estrelas gêmeas, numa reciprocidade exata; como dois olhos num mesmo rosto. Um, voltado para o infinito da comunhão, da solidariedade, da compaixão, ao lado do outro, indicando um abismo de destruição, rancor, desprezo, inimizade e prevenção contra o outro ou a outra.
*
Sempre percorrendo os caminhos do amor, como disse Roberto Crema, vivemos à procura das cores do arco-íris do bem-querer, do bem-amar, do bem-viver, como quem desenha os degraus básicos da vida em busca da plenitude do ser. Por essa escadaria sobem e descem anjos e demônios, e seres humanos. O amor faz florescer a árvore do ser homem ou mulher. É o amor que faz germinar, florescer e frutificar a vida. Disse Jesus: “pelos frutos conheceis a árvore”. A flor foi feita para o fruto, os estados de consciência do amor nos levam para outros estágios da vida, até à felicidade plena. O Dalai Lama, perguntado sobre esse assunto, respondia: “O amor já está inteiro na semente, na flor e no fruto”.

AS APARÊNCIAS ENGANAM. COMO ENGANAM…

Diz a canção: “As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam, porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões. Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno. Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali, nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera. No insistente perfume de alguma coisa chamada amor” (Sérgio Natureza/Tunay).
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Uma interessante fábula chinesa conta que um homem garantia que seus escudos e lanças eram os melhores existentes. “Nada consegue atravessar meus escudos, e minhas lanças perfuram qualquer coisa, de pedra, madeira ou aço”, dizia o vendedor dessas armas antigas. Então, alguém perguntou-lhe: – “E o que acontece se suas lanças são lançadas contra seus próprios escudos?” Poderíamos comparar o amor e o ódio ao escudo e à lança, na defesa ou ataque de quem quer que seja.

LENHA NA FOGUEIRA DOS QUE CULTIVAM O ÓDIO
As condutas violentas confundem amor e ódio, irmãos gêmeos, embora opostos. Aparentemente, o ódio acende fogueiras que parecem não extinguir jamais, perseguido por um combustível que alimenta brasas e levanta labaredas que pretendem queimar tudo, por dentro ou ao redor das pessoas. Como se fora um alimento imperecível que se levanta de memórias e recordações de tempos que ficaram para trás, onde houve a comunhão, ou pelo menos intenções e sonhos de convivência fraternal. O ódio não é neutro. Ódios raciais, ódios quanto à alteridade sexual, ideológica, filosófica, teológica, cumprem essa ordem. O ódio, como brasas sob cinzas, aparentemente neutras, queima o ser por dentro.
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O amor, ao contrário, pode esfriar, na indiferença, enquanto corações viram gelo que não degela nunca. Paixões ardentes podem se converter em geleiras milenares, esfriando corações que nunca mais se aquecem. Uma vida toda pode esconder um sentimento amordaçado, congelado, na aparência de um ser externamente calmo e suave. Se isso acontece, não há forma nem há tempo para para se aquecer corações gelados invulneráveis ao perdão e à reconciliação, resta apenas chorar sob o cobertor.

O INFERNO, O AMOR E O ÓDIO
Viver sob o signo do ódio é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro. Como duas estrelas gêmeas, numa reciprocidade exata; como dois olhos num mesmo rosto. Um, voltado para o infinito da comunhão, da solidariedade, da compaixão, ao lado do outro, indicando um abismo de destruição, rancor, desprezo, inimizade e prevenção contra o outro ou a outra.
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Sempre percorrendo os caminhos do amor, como disse Roberto Crema, vivemos à procura das cores do arco-íris do bem-querer, do bem-amar, do bem-viver, como quem desenha os degraus básicos da vida em busca da plenitude do ser. Por essa escadaria sobem e descem anjos e demônios, e seres humanos. O amor faz florescer a árvore do ser homem ou mulher. É o amor que faz germinar, florescer e frutificar a vida. Disse Jesus: “pelos frutos conheceis a árvore”. A flor foi feita para o fruto, os estados de consciência do amor nos levam para outros estágios da vida, até à felicidade plena. O Dalai Lama, perguntado sobre esse assunto, respondia: “O amor já está inteiro na semente, na flor e no fruto..


Derval Dasilio
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DA ALVORADA AO ENTARDECER DA VIDA
Todos os dias começam com a alvorada. Choveu de madrugada, mas o claro da manhã faz tudo acordar ao redor. O galo cantou, e não tem jeito, o dia brota e as fontes continuarão a minar. Logo o céu azula na linha do mar, graças ao sol, e vem para clarear ainda mais o dia. Há sinais de eternidade acompanhando a alvorada. Também no rio que corre sempre para o mar, ou nas ondas que sempre batem nos rochedos, e depois se dissolvem na praia. E nasce o dia. Eternamente.
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Quem conseguiu a serenidade, apesar das agulhas cheias de veneno das quais temos que no desviar; apesar dos pesadelos e ingratidões que fazem chorar, e das ilusões incutidas no tempero da ganância, pode alegrar-se com a alvorada. Cartola cantou: Alvorada lá no morro / Que beleza / Ninguém chora / Não há tristeza / Ninguém sente dissabor / O sol colorindo é tão lindo / É tão lindo / E a natureza sorrindo / Tingindo, tingindo / A alvorada… /.

NA VELHICE VALORIZAMOS MAIS A BELEZA
O tempo alerta para as escolhas que devo fazer, em minha velhice. Uma delas é não acreditar no tempo, mas usá-lo. Com prazer.  Desse modo não penso na finitude, nem em escatologias. Assim, posso sentir a infinitude das coisas. Contemplar a eternidade das coisas belas, é um caminho bom para ser feliz, e para antecipar a plenitude da vida.
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Comparo a sensação de vácuo do tempo ao prazer indescritível de estar no meio das plantas, num bosque, em meio a árvores que brotaram, tantas vezes, mais de um século atrás. Cheirar o húmus por toda parte, ver orquídeas selvagens enlaçando os troncos onde se hospedou um dia uma semente trazida por uma ave qualquer. Ver e ouvir os pássaros que ali construíram seus ninhos, e depositaram ovos que fizeram eclodir novos pássaros sem interferência do tempo. E ouvir seus sons diferentes, do nascer do sol ao entardecer. Assim, posso contemplar o infinito, e concordar com Emmanuel  Lévinas: é de Deus que vem a ideia do infinito e da eternidade.

Derval Dasilio

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CARTAS E CANÇÕES [1]

Quando falamos de cartas deveríamos fazê-lo pensando no carteiro. Uma carta precisa de uma disposição do destinatário, a de descobrir as coisas que vêm dentro de um envelope, ou simplesmente redescobrir as intenções de quem escreveu. Precisamos pensar que cada palavra conta alguma coisa em primeiro lugar. No decorrer do delicioso filme “O Carteiro”, Neruda trava contato com o carteiro, que vai entregar as cartas que chegam trazendo notícias. Mario, o carteiro que lhe entregava as encomendas, queria convencer sua amada do seu amor, e foi aconselhado a escrever poesias. Pedia a Neruda para ensinar-lhe como fazer. E o poeta dizia: “escreva, explicar um poema significa a morte da poesia”. Poesia não se explica, tem que ser sentida. Como na magia, o que procuramos nas palavras não é o segredo, mas a fascinação e a inquietação que um poema provoca. A magia da poesia também não está no desvendar do segredo, mas no despertar de emoções que as palavras provocam.

Há uma linha forte ligando a poesia de Chico Buarque, que também esteve exilado na Itália durante a ditadura militar no Brasil. As afinidades prosseguem na canção, que é uma carta: Meu caro amigo me perdoe, por favor/ Se eu não lhe faço uma visita/ Mas como agora apareceu um portador/ Mando notícias nessa fita (Neruda também recebia discos, e dançava com os tangos de Gardel)/. Aqui na terra tão jogando futebol/ Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll/ Uns dias chove, noutros dias bate o sol/  Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta/ Muita mutreta pra levar a situação/ Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça / E a gente vai tomando…/ Que também sem a cachaça,/ Ninguém segura esse rojão./ Meu caro amigo eu não pretendo provocar/ Nem atiçar suas saudades,/ Mas acontece que não posso me furtar/ A lhe contar as novidades.

E as notícias impregnavam o papel. Quantos de nós recebemos cartas violadas pela censura, nessa época. As afinidades entre as canções, a poesia e as cartas, se acentuam.
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CARTAS E CANÇÕES [2]

Todavia, cartas de amor já motivaram uma revolução no Brasil. João Pessoa, governador da Paraíba, foi morto por João Dantas. Dias antes, a polícia do governador tinha invadido a casa de Dantas, sequestrara cartas de amor trocadas entre ele e a amada Anayde Beiriz. E o governador mandou divulgar as cartas publicamente, para ridicularizar o adversário. O crime passional detonou uma Revolução (1930), o presidente Washington Luís foi deposto, e Getúlio Vargas assumiu o poder inaugurando uma ditadura que durou 15 anos.
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Depois do crime, João Dantas foi preso e morreu na cadeia. Não se sabe com certeza se ele se suicidou ou se foi morto. Nunca declarara oficialmente os motivos que o levaram a assassinar o difamante, nem teve como… Contudo, com a prisão de João Dantas, Anayde Beiriz, a amada injuriada, refugiou-se numa casa de misericórdia, em Recife, e também morreu. Dizem que ela teria se suicidado. Quem diria! Cartas de amor provocaram uma revolução política que mudou o Brasil…
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CARTAS E CANÇÕES [3]
Mentiras voam com o papel ao vento, levando palavras ridículas de amores sofridos ou não correspondidos. O missivista chora as mágoas. Histórias tristes de amores acabados com lágrimas, evocações de falsa meiguice, cartas que contam histórias das dores do amor, corações despedaçados buscando consolo em palavras machucadas. Depois as reclamações da farsa que precisa ser esquecida, como descreveu Tito Madi, entre meus cantores preferidos na juventude: Rasguei suas cartas/ Queimei suas recordações./Mentiras, cansei de ilusões… Quem não rasgou uma carta, com raiva do ridículo, uma vez na vida?
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Nada, porém, supera a canção de Isaurinha Garcia sobre nossas ansiedades na espera do carteiro: Quando o carteiro chegou,/ E o meu nome gritou,/ Com uma carta na mão./  Ante surpresa tão rude,/ Nem sei como pude / Chegar ao portão./ Lendo o envelope bonito,/ No subscrito, eu reconheci/ A mesma caligrafia, que me disse um dia:/ Estou farto de ti. E, sem coragem para abrir a carta colada com saliva ou goma arábica, vêm as especulações: a carta contém notícias alegres? Serão tristes as coisas escritas ali?  
*
E o poeta, Paulo Vanzolini, termina sua canção: Quanta verdade tristonha,/ Ou mentira risonha, uma carta nos traz…/ E, assim pensando, rasguei tua carta/ E queimei, para não sofrer mais. Mas fica subentendido o ridículo, o remorso ou o arrependimento sobre o que não foi. E as perguntas: a história de amor teria terminado de outra maneira, se o destinatário tivesse lido “aquela” carta?
*
Mas foi o mesmo Vanzolini que acabou com essa choradeira amorosa, num realismo contundente: Chorei, não procurei esconder,/Todos viram, fingiram,/ Pena de mim, não precisava./ Ali onde eu chorei qualquer um chorava…/ Dar a volta por cima, que eu dei, quero ver quem dava./ Um homem de moral não fica no chão./ Nem quer que mulher venha lhe dar a mão./ Reconhece a queda e não desanima./ Levanta, sacode a poeira/ E dá a volta por cima.
*
Finalizando, aqui” todos bem”, escrevia Carlos Drummond Andrade concluindo uma carta à mãe: “Abençoe o filho e os netos e receba as nossas lembranças, nesta carta. Todo carinho e saudades…”

Derval Dasilio

 

 

 

CURTAS, UM POUCO MAIS…

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NÃO ACREDITO NO TEMPO

Tudo parece impossível, se não difícil de explicar, quando se trata de falar do tempo. Como explicar o êxtase, especialmente se for daqueles incomparáveis? Uma felicidade estética é inexplicável, o jeito é senti-la. O mesmo se dá com o tempo. Sentir o tempo é reconhecer a vida num cotidiano de simplicidade. Sem preocupações com o óbvio, posso descrever essa felicidade, quando muito, como sensação de estar ligado a outras existências alcançadas pela contemplação, pela curiosidade, pela ternura e a doçura de visões maravilhosas. Observar as cores de borboletas esvoaçantes, seus movimentos no meio das árvores, buscando o néctar que nunca se esgota, porque é infinito, permite-me gozar com o tempo que me é dado.

Lévinas disse que procuramos alhures a transcendência do infinito, quando de fato o infinito está no rosto do próximo, o ser-humano, o rosto de outro homem – ou de outra mulher –, com os quais já devíamos ter assumido as responsabilidades cabíveis quanto às suas vidas. E às nossas próprias vidas. Estar próximo de Deus e das plenitudes, vendo o rosto do próximo, significa dar sentido à duração do tempo, que talvez nem mesmo exista. Dar sentido à paciência de viver e sorver o tempo como a um vinho velho, em repouso por muitos anos para ficar melhor.

Suponhamos que para penetrar no mistério do tempo tivéssemos que esperar uma brecha numa muralha, ou galgar os muros de uma fortaleza, subir até a torre de onde se vê pradarias, bosques, colinas, córregos, flores do campo. Perguntaríamos sobre a brisa que sopra sobre os lagos, as serras, para depois sumir no mar. O tempo não passa de uma imaginação, como as perdas das coisas que queremos encontrar na noite das memórias, sabendo que não é mais possível uma busca do que nem existe mais. Amores perdidos para os quais nem mesmo adianta deixar a porta aberta. Nenhum deles entrará por ela, porque só a imaginação retira das sombras o que foi, antes, uma grande paixão. Um grande amor.

ONDE ESTÃO AS SENSAÇÕES DE ETERNIDADE…
Imaginemos que o tempo possa fazer a lua murchar, e que é preciso socorrer o luar, como dizia Tom Jobim, na canção: É preciso gritar e correr, socorrer o luar./Abre a porta pra noite passar,/ Olha o sol da manhã./ Olha a chuva,/ Olha o sol,/ Olha o dia a lançar serpentinas./Serpentinas pelo céu, sete fitas coloridas./Sete vias, sete vidas,/Avenidas pra qualquer lugar. O tempo não impede a chuva de molhar a terra, de encher o rio. De lavar o céu cheio de nuvens negras, e trazer de volta o azul dos dias de sol.O riachinho de água limpa não pode ser impedido de se lançar às águas calmas do rio.
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O jasmineiro continuará a florir de branco as tardes, mesmo aquelas tardes de Gardel, tardes gris, onde gotas úmidas banham flores perfumadas. As roseiras nem sabem que sua fragrância será exaltada pelos poetas, continuarão a presentear olfatos, mesmo os  contaminados pela poluição das cidades sem jardim. O tempo não impede amores puros, nem é dono dos pensamentos dos amantes. Nem impede os passarinhos de passear na calçada molhada, ou saltitarem nos jardins impregnados de primavera.
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O sol brilhando e fazendo o céu mais azul, as rochas refletindo os raios de sol com seus cristais, a areia fofa onde enterro meus pés, revelam-me lampejos de eternidade. O sol, o céu, o brilho dos cristais, não dependem do tempo. Duram dentro da eternidade. Sempre estiveram e sempre estarão ali, como contraponto à finitude humana. E só podemos sentir gratidão por sermos humanos e poder  contemplar essas realidades enquanto estamos participando das mesmas, observando algo que está fora do tempo. Tudo isso nos oferece a sensação da eternidade. A permanência das coisas belas estimula a vontade de contemplar ainda mais o que nos é dado ver, sentir e gozar, enquanto nos aproximamos ainda mais do infinito.

NA VELHICE VALORIZAMOS MAIS A BELEZA
O tempo alerta para as escolhas que devo fazer, em minha velhice. Uma delas é não acreditar no tempo, mas usá-lo. Com prazer.  Desse modo não penso na finitude, nem em escatologias. Assim, posso sentir a infinitude das coisas. Contemplar a eternidade das coisas belas, é um caminho bom para ser feliz, e para antecipar a plenitude da vida.
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Comparo a sensação de vácuo do tempo ao prazer indescritível de estar no meio das plantas, num bosque, em meio a árvores que brotaram, tantas vezes, mais de um século atrás. Cheirar o húmus por toda parte, ver orquídeas selvagens enlaçando os troncos onde se hospedou um dia uma semente trazida por uma ave qualquer. Ver e ouvir os pássaros que ali construíram seus ninhos, e depositaram ovos que fizeram eclodir novos pássaros sem interferência do tempo. E ouvir seus sons diferentes, do nascer do sol ao entardecer. Assim, posso contemplar o infinito, e concordar com Emmanuel  Lévinas: é de Deus que vem a ideia do infinito e da eternidade.

Derval Dasilio

ARQUIVOS – MEDITAÇÕES CURTAS

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ARQUIVO DE MEDITAÇÕES MAIS CURTAS

O BRASIL DE HOJE NA OBRA DE PAULINHO DA VIOLA
“Mesmo no disco mais triste de Paulinho, homenageando Lupicínio Rodrigues, que é ‘Nervos de Aço’ (1973), não há melodrama nas letras”, ressalta ela. “Há dor, tristeza, luto, mas nunca um transbordamento da emoção. Existe delicadeza, elegância, uma aceitação do sofrimento como parte da vida e um reconhecimento do desejo do outro.”

No livro, Negreiros apresenta essas conclusões iluminando versos que, de tão cantados, parecem ter perdido parte de sua força original.

Segundo a Eliete Eça Negreiros, ao examinar a obra de Paulinho da Viola, é como se fosse examinar “a alma do sambista”. “Paulinho conversa com sua criação, acho isso maravilhoso”, diz, e cita exemplos:

“Às vezes ele reclama da vida: ‘Ah! Meu samba, tudo se transformou/ Nem as cordas do meu pinho/ Podem mais amenizar a dor’, e aí o samba é amigo, confidente.”

Outras vezes, “reclama da indiferença do samba: ‘Meu samba não se importa que eu esteja numa/ De andar roendo as unhas pela madrugada’. Às vezes ele conta o que aconteceu com seu samba: ‘Meu samba andou parado até você aparecer’.”

“Na canção, a ideia de uma pele ferida é especialmente esclarecedora para a caracterização do estado melancólico, pois a ferida é precisamente a marca, o vestígio de algo que, embora tenha passado, ainda causa sofrimento. Ela é sinal do passado e da permanência da dor.

Há em algumas canções este singular paradoxo da esperança e da tristeza, segundo as exigências da realidade expressa no desconforto político de nossos dias. Por um lado, o poeta declara que a melancolia paralisa a sua alma, rouba-lhe a inspiração: ‘Eu gostaria de ver essa tristeza passar/ Um novo samba compor, um novo amor encontrar/ Mas a tristeza é tão grande no meu peito/ Não sei pra que a gente fica desse jeito’.

PAULINHO DA VIOLA E O ELOGIO DO AMOR
Eliete Eça Negreiros
EDITORA Ateliê, 2016
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O ÓDIO ACENDE FOGUEIRAS SEM PREVISÃO DE EXTINÇÃO

Diz a canção: “As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam, porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões. Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno. Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali, nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera. No insistente perfume de alguma coisa chamada amor” (Sérgio Natureza/Tunay).
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Uma interessante fábula chinesa conta que um homem garantia que seus escudos e lanças eram os melhores existentes. “Nada consegue atravessar meus escudos, e minhas lanças perfuram qualquer coisa, de pedra, madeira ou aço”, dizia o vendedor dessas armas antigas. Então, alguém perguntou-lhe: – “E o que acontece se suas lanças são lançadas contra seus próprios escudos?” Poderíamos comparar o amor e o ódio ao escudo e à lança, na defesa ou ataque de quem quer que seja.
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As condutas violentas confundem amor e ódio, irmãos gêmeos, embora opostos. Aparentemente, o ódio acende fogueiras que parecem não extinguir jamais, perseguido por um combustível que alimenta brasas e levanta labaredas que pretendem queimar tudo, por dentro ou ao redor das pessoas. Como se fora um alimento imperecível que se levanta de memórias e recordações de tempos que ficaram para trás, onde houve a comunhão, ou pelo menos intenções e sonhos de convivência fraternal. O ódio não é neutro. Ódios raciais, ódios quanto à alteridade sexual, política, ideológica, filosófica, teológica, cumprem essa ordem. O ódio, como brasas sob cinzas, aparentemente neutras, queima o ser por dentro.
[Derval Dasilio]

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UM MERGULHO NO MUNDO SOMBRIO DESTE MOMENTO
“Mesmo que eu andasse pelo vale da morte, não temeria mal algum” (Salmo 23). Se olharmos à nossa volta, constatamos que a morte é a grande senhora de tudo ao redor, o que é criado, o que é real e histórico, pois tudo é submetido às leis da termodinâmica. A entropia demonstra que a vida vai gastando seus acúmulos energéticos, declinando até morrer.Escrevia Leonardo Boff: “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se auto-regula e se reproduz: é a vida”.
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Uma vez, Carl Jung, porém, permitindo um mergulho nas profundezas do ser, admite uma reflexão aceitável para uma força e energia criadora a quem nos rendemos, como organizadora do caos. Uma Energia que compreende a participação humana na continuidade e utilização dessa força e dinâmica na obra da criação dentro do caos.Há um tempo para todas as coisas… As forças caóticas ainda não completaram seu serviço desorganizador, quanto ao futuro da humanidade (Nilton Bonder).
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Portanto, em relação ao equilíbrio do campo coletivo, humano, devemos ser profundamente observadores, atentos ao sistema de valores externos à nossa mente organizadora, que revele nosso estado coletivo sujeito a negar a vida, como indicou   Jesus: vida plena e eterna, com a qual ele se identifica como Pastor e condutor.
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Porém, isso não explica nem resolve a desordem. Apenas descreve o processo de seu surgimento do caos de cada dia. Ela continua misteriosa. Não fora assim, a experiência acumulada pela humanidade, pretenderia o oitavo dia da Criação, sem avaliar os danos sobre a responsabilidade ética e a solidariedade com os seres da natureza que existiram antes de nós e continuarão a existir no futuro (Euler Westphal). O mundo finito luta contra a vida infinita. Eis a lição para o momento tenebroso que experimentamos hoje.
[Derval Dasilio]
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O MAPA PARA ENCONTRAR UM TESOURO DE VALOR INCALCULÁVEL
A construção da vida pode ser explicada assim. Só quem é machucado, quem se incomoda por alguma coisa que deve ser mudada ou acrescentada, quem sofre a falta de algo importante no mundo, cria uma obra permanente e exemplar para o resto do mundo. Os gestos, os sorriso, os olhares, falam mais que mil palavras… Um gesto de amor, de compaixão ou ternura, vale para a vida toda.
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Para cada um de nós, partilhando do sofrimento do outro ou da outra, é solidificar o que vem a ser parte de um tesouro que ainda vai ser encontrado. Ou, no mínimo, legado e transmitido a outros. O mapa desse tesouro conduz-nos para viajar por ambientes fechados, cavernas profundas, e espaços abertos infindáveis; leva-nos a sentir calor e frio, ver a luz e escuridão, ouvir palavras e silêncios, compartilhar comunhão e solidão, elaborar significados para a vida e para a morte. Vale a pena sofrer por amor a uma bela causa?

[Derval Dasilio]
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O REINO É UM DOM INCOMPARÁVEL
O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica. O Reino alcança em primeiro lugar o oprimido.
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Na antiguidade bíblica, cidades-estado eram a própria nação, enquanto concentravam governantes, negociantes e banqueiros… e trabalhadores costumeiramente diaristas: “Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles”  (Isaías 1,1;10-20). Alguma semelhança com os nossos dias?
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O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas: aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores — representantes da sociedade excludente —, flageladores de crianças, mendigos e doentes mentais. Porque estes podem contar somente com o Reido de Deus e a sua Justiça.
[Derval Dasilio]
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EXCLUÍDOS SÓ PODEM CONTAR COM O REINADO DE DEUS
O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte social, econômica, espiritual, cultural. O Reino é dado também aos excluídos da saúde com qualidade; aos dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado.
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A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis.  Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo. Defesa da vida é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural. É consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça.
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A sociedade humana reclama salvação, contra todas as mortes.  Investir na consciência, na necessidade de transformação do mundo, é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, segundo o evangelho de Jesus Cristo.
[Derval Dasilio]
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AMOR E ÓDIO SÃO NOMES DOS CÃES DO INFERNO
Viver sob o signo do ódio é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro. Como duas estrelas gêmeas, numa reciprocidade exata; como dois olhos num mesmo rosto. Um, voltado para o infinito da comunhão, da solidariedade, da compaixão, ao lado do outro, indicando um abismo de destruição, rancor, desprezo, inimizade e prevenção contra o outro ou a outra.
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Sempre percorrendo os caminhos do amor, como disse Roberto Crema, vivemos à procura das cores do arco-íris do bem-querer, do bem-amar, do bem-viver, como quem desenha os degraus básicos da vida em busca da plenitude do ser. Por essa escadaria sobem e descem anjos e demônios, e seres humanos. O amor faz florescer a árvore do ser homem ou mulher. É o amor que faz germinar, florescer e frutificar a vida. Disse Jesus: “pelos frutos conheceis a árvore”. A flor foi feita para o fruto, os estados de consciência do amor nos levam para outros estágios da vida, até à felicidade plena. O Dalai Lama, perguntado sobre esse assunto, respondia: “O amor já está inteiro na semente, na flor e no fruto”.

Derval Dasilio

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DEUS COMO EXPRESSÃO DA ALMA PROFUNDA
Gaston Bachelard lembrava: é preciso descer ao fundo do ser, sem preocupar-nos com a tagarelice da dúvida. A alma em devaneios antigos e recentes emerge das profundidades, reconciliando o passado com o presente. Quanto mais profundo é o ser, mais luzes serão necessárias para iluminar os abismos da existência. Citando Henri Bosco, disse também: “para exprimir a alma profunda do ser, me vinha a ilusão de não mais encontrar-me no mundo real, composto de limo, pássaros, plantas e arbustos vivos, no próprio seio da alma, cujos movimentos e calmarias se confundem com minhas variações interiores”.

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Não se trata de querermos nos apossar do ser de Deus, mas de sermos depositários das qualidades amorosas de Deus. Ou seja, permitir que a bondade, a paciência, a misericórdia, a compaixão, a solidariedade, o cuidado, a ternura, suplantem as heranças ancestrais, os atavismos dominantes no ser ainda sem a consciência de Deus: a megalomania, o ódio, o rancor, a belicosidade, a crueldade, a maldade, a inveja, a ganância de poder e de bens, e a dissimulação, são coisas velhas que insistem em sobreviver em nós.

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Ocorreu uma coisa com o profeta Elias, que procurava intensamente a experiência de Deus, orando. Então, uma voz lhe falou: “Sai de onde estás e coloca-te diante da montanha. Um terrível furacão deslocava a rocha e quebrava os rochedos,  mas Yahweh não estava no furacão. Depois, houve um terremoto que abria fendas no solo, mas Yahweh não estava no terremoto. Em seguida, um incêndio de grandes proporções, mas Yahweh não estava no fogo. Depois do fogo soprou uma brisa mansa, cuja suavidade era incomparável. E, então, lá estava Deus.
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DISSE JESUS: ESTOU ONDE QUERO QUE  VOCÊS ESTEJAM
O que um budista indiano chama “ahimsa” um israelita bíblico, como Jesus, chamaria de “rahamim”. É a mesma atitude de compaixão, originalmente “não-machucar” o outro. Uma atitude que se sobrepõe à vontade de dominar o outro a qualquer custo, pisar no pescoço de alguém para passar à frente, entrar na realidade do outro para dominá-lo. O hebreu usa a palavra “rahamim” (“ter sensibilidade, sentimentos”, “ter entranhas”, “ter coração”: o coração é sede dos melhores sentimentos, pensa o israelita bíblico), para identificar a compaixão de Deus pelo oprimido, pobre, aflito, despojado, sem-posses, sem-nada. Deus vê seus filhos com extremo cuidado, acolhendo-os sempre com amorosa compaixão.
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Os planos do ser-pessoa são diferentes, por si mesmos, em suas variedades, manifestações, diferenças e diversidades. É preciso reconhecer a beleza do ser em si mesmo, e respeitá-lo. Ser unido com o Pai, como Jesus disse (“onde eu estou, quero que vocês estejam”), passa a ser o mais importante que tudo. Isto é, como disse Jesus, “eu e o Pai somos um, e vocês devem ser unidos conosco, nos gestos e nas atitudes”. Jesus quis compartilhar as qualidades paternais de Deus com seus irmãos, que somos nós, no relacionamento com todos os outros, indistintamente, sejam quais forem aqueles outros.

 

A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA

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Lucas 12,32-48  

A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos aparentes e nem com esperanças imediatas. Ingmar Bergman disse: “a fé é uma aflição dolorosa”. Para muitos, no entanto, não é. O cristianismo simbólico, ou nominal, dispensa a fé, e desconhece a esperança, envolvido com o propósito estatístico, propositista, mas sem essência. Não é inclusivo. Não considera direitos humanos; despreza e alija pessoas da vida de fé.

Esquece crianças, jovens e idosos sob forte risco social; pobres, doentes e famintos condenados à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Este hedonismo patológico experimenta a violência da competição e da ganância em toda parte, fechando o futuro. Como disse o papa Francisco, nos extremos se nega a participação criativa aos jovens e a transmissão da sabedoria aos anciãos.  

O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica.

O Reino é dado aos excluídos da saúde com qualidade; aos dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado.

O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas: aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores — representantes da sociedade excludente —, flageladores de crianças, mendigos e doentes mentais.

“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles”  (Isaías 1,1;10-20).

A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época. Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo.

Defesa da vida é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural. É consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça. A sociedade humana reclama salvação, no desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte. Todas as mortes.  Investir neles é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, segundo o evangelho de Jesus Cristo.

MARCADOS PARA MORRER SEM JUSTIÇA…

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Salmo 88 – Marcados para morrer sem justiça…

Um fantasma assombra quem vive confiante nas tecnologias que “salvarão” qualquer pessoa. Repercussões do racionalismo instrumental. De um lado os gordos e bem alimentados, “jogging” e academias de ginástica; os que procuram espaços públicos como formigas, gozando da escassa natureza; aqueles que absorvem doses cavalares de solidão, carentes de comunhão, diante de celulares, “palm-tops” e “tablets”, sofregamente acessando redes sociais. Comem de tudo e em qualquer lugar, barris de pipocas, hambúrgueres de três andares, mas não tiram os olhos dos celulares. Nos aeroportos, nas ruas, no teatro e no cinema, nos templos, pessoas agem como robôs teleguiados, fazendo sempre a mesma coisa. Não importa o lugar onde estejam…
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O que perguntaríamos sobre deficiências físicas, deficiências cerebrais, subnutrição, fome endêmica, idosos abandonados  em asilos, doenças comuns, epidemias, doenças terminais? Quem cuida dos doentes, o estado, o poder público, a igreja, as denominações religiosas, as seitas, as instituições esotéricas, caracterizados por uma pluralidade egoísta, onde cada um quer tão somente responder por si mesmo, esquecido da humanidade requerida em suas ações?
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[Salmo 88] 1 Ó Senhor, Deus que me salva, a ti clamo dia e noite.2 Que a minha oração chegue diante de ti; inclina os teus ouvidos ao meu clamor.3 Tenho sofrido tanto que a minha vida está à beira da sepultura!4 Sou contado entre os que descem à cova; sou como um homem que já não tem forças.5 Fui colocado junto aos mortos, sou como os cadáveres que jazem no túmulo, dos quais já não te lembras, pois foram tirados de tua mão.6 Puseste-me na cova mais profunda, na escuridão das profundezas.7 Tua ira pesa sobre mim; com todas as tuas ondas me afligiste.8 Afastaste de mim os meus melhores amigos e me tornaste repugnante para eles. Estou como um preso que não pode fugir;9 minhas vistas já estão fracas de tristeza. A ti, Senhor, clamo cada dia; a ti ergo as minhas mãos.10 Acaso mostras as tuas maravilhas aos mortos? Acaso os mortos se levantam e te louvam?11 Será que o teu amor é anunciado no túmulo, e a tua fidelidade, no Abismo da Morte?12 Acaso são conhecidas as tuas maravilhas na região das trevas, e os teus feitos de justiça, na terra do esquecimento?13 Mas eu, Senhor, a ti clamo por socorro; já de manhã a minha oração chega à tua presença.14 Por que, Senhor, me rejeitas e escondes de mim o teu rosto?15 Desde a juventude tenho sofrido e ando perto da morte; os teus terrores levaram-me ao desespero.16 Sobre mim se abateu a tua ira; os pavores que me causas me destruíram.17 Cercam-me o dia todo como uma inundação; envolvem-me por completo.18 Tiraste de mim os meus amigos e os meus companheiros; as trevas são a minha única companhia.  
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O salmo 88 é o salmo dos desesperados. Está afirmando que nos encontramos no reino da morte, ou nos lugares ocupados pelo candidatos a morrer abandonados, e depois esquecidos para sempre. Através da fé, no entanto, como nos ensinam os evangelhos, devemos nos assegurar de que todas as fragilidades humanas são alcançadas pela misericórdia de Deus. Paradoxalmente, onde se acabam as resposta humanas ao sofrimento, começa a atenção de Deus. Transcendência: “O que faço agora só compreendereis depois” (João 13,7). Mas, o poeta enfermo, acometido por epidemia inexplicável, clama de modo quase hostil pela providência divina. Por quê seria hostil a Deus? Ora, o salmista, na contingência da morte, porquanto não se conforma com os determinismos concebidos em seu meio, revolta-se contra os mesmos. A resignação, o fatalismo, a acomodação a fatos que poderiam ser mudados é inadmissível ao orante. Estamos diante de um artículos mortis, diz o comentarista Luis Alonso Schökel (Bíblia do Peregrino).
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Como é largamente conhecido pela teologia, o hebreu bíblico desconhece quaisquer conceitos sobre a ressurreição. Essa compreensão tardia está próxima dos dias de Jesus e dos apóstolos do NT. Não cabe, aqui, discuti-la. Especialmente porque vem impregnada de conceitos, como na exposição do Homem de Nazaré à autoridade sinagogal, Nicodemos (João 3,1-17). Nicodemos altera a “lógica” comum do evangelho neotestamentário: diálogo e testemunho sobre a fé autêntica. Nicodemos respeita Jesus, mas se encontra dependente da primeira discussão: a “fé” que depende de milagres. A “fé” que exige sinais não corresponde à fé num mundo novo possível, sob o governo de Deus. E Jesus propõe uma mudança radical, não um novo conceito de renovação da fé. Não uma renovação, mas uma inovação: começar tudo do zero! Do nada. Desaprender o catecismo! Nascer de novo. Começar de novo, como um nascituro, abraçar uma natureza nova (natus, “nascido” procede de “natura”, no latim).
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Tudo acontece no caminho da felicidade. O poeta nos lembrará: “a felicidade é como uma pluma que o vento vai levando pelo ar./Voa tranquila, depois de leve oscila, e cai como uma lágrima do olhar”. A saúde é um item básico na mochila do caminhante, na trajetória de todo homem e de toda mulher. Ninguém pode se iludir, quando o assunto é enfermidade, doenças que ocorrem inapelavelmente no decorrer de uma vida. A doença é sempre uma notícia ruim, mas é também uma verdade da qual não se pode fugir. A busca da humanidade plena, porém, nos indicará que o controle, o combate das doenças, especialmente as epidemias, as quais atingem preferencialmente os indefesos ou abandonados pelos poderes públicos, é parte dos deveres que todos temos de preservação nossa e dos mais fracos, indistintamente.

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A fidelidade divina vence todas as nossas fraquezas, debilidades, incapacidades, nas vítimas das sociedades injustas e sem compaixão, mais atuantes do que nunca nos dias de incerteza que atravessamos. Quanto maior a dor, e o sofrimento das massas, mais se acentuam as responsabilidades das pessoas, por sua vez entregues a um narcisismo que supera o simples egoísmo. Acham-se individualmente inatingíveis, protegidas para sempre por planos de saúde caríssimos, medicina de ponta, tecnologias, laboratórios e aparelhos cirúrgicos ultramodernos.
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Há gente que se encanta  com concentração de renda, propriedade, poder de compra, consumismo irresponsável na coisificação e insignificação do semelhante, usado e jogado fora (Uselo y Tirelo – Eduardo Galeano).  Ideias voyeuristas expõem o ser humano como mercadoria barata, afirmando isoladamente a falta de importância do mesmo. Vive-se uma cultura sitiada pelo dinheiro, segundo Jurandyr Freire. Todos ficam felizes em falar de moral, ciência, religião, política, esportes, amor, filhos, saúde, alimentação saudável, esteira rolante, eletrocardiograma, mamografia, ultrassom, próstata, colonoscopia, e mesmo assim, nas palavras de Woody Allen, chega o dia inevitável da morte.
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Entram nas farmácias procurando calmantes, medicamentos contra a tensão cotidiana, drogas que serão consumidas em pilhas de caixas. De outro lado o imenso contingente de pobres e carentes. Há os famintos, alvos do nojo da cidade, os que comem lixo e sobras, pivetes, crackeiros, viciados, moradores de rua. Na periferia e favelas um contingente monumental, nem ousamos falar de suas carências.
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O poeta, autor deste salmo, sabe que a morte é uma potência incontrolável, agindo contínua e irrevogavelmente. Como um incêndio que a tudo consome, fogo que torna o ser comparável a cinzas. É também a identificação das trevas eternas, a ausência de luz, prisão perpétua, terra dos abandonados, onde até se esquece de reivindicar a lembrança do sentido de sua própria existência. Os mortos não se levantam, diz o poeta bíblico, não percebem que podem reivindicar que se investiguem e se tomem providências para atenuar as causas das mortes. Como numa parábola vivida por milhões, se não bilhões, ignorados pela sociedade privilegiada, impiedosa, e poderes públicos.
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Em total oposição às nossas teorias da consciência sobre “castigo que vem do céu”, do sofrimento humano compreendido como determinismo sócio-político, somos obrigados a constatar que sempre existiu e continua existindo o sofrimento, que é aceito sem mais nem menos. Nesse caso, o sofredor se rebela. No caso, o poeta enfermo deste belo salmo existencial não capitulou, e reivindica a salvação até o fim. Tradições ou circunstâncias exteriores fazem o indivíduo emudecer diante do sofrimento, ocultando as fontes do mesmo, ensinando a esperar seu destino em passividade, resignado ou apático. Mas, este poeta contraria a regra.

À semelhança do animal que, num esconderijo, lambe as feridas e aguenta a dor até que melhore, ou morra, também o ser humano pode sofrer como um animal, sem inquirir, sem refletir, sem resistir. Talvez se trate de um comportamento instintivo que se impõe diante da consciência coletiva, quando o senso comum aponta equivocadamente: “não há esperança de mudança, a situação é irreversível” (Gerstenberguer/Schrage, citados abaixo). O salmista, porém, protesta pelo destino que as circunstâncias querem lhe dar. E insiste na busca do amparo dos céus. “Ó Senhor, Deus que me salva, a ti clamo dia e noite. Que a minha oração chegue diante de ti; inclina os teus ouvidos ao meu clamor”. Amém.

Derval Dasilio

NOTA:

Instala-se um vazio na consciência  humana, incapaz de enfrentar os horrores e escárnios dos que estão no poder, e dos que os sustentam. Suprime-se a vontade de mudar e transformar a sociedade. Para estes, interessa proclamar a morte de Deus, obrigando, convencendo a coletividade humana a reconhecer que Deus nada faz pelo oprimido. Pelo que sofre. Ou pelo que está marcado para morrer e integrar o mundo dos esquecidos. Há coisas que devem ter ficado claras com o que dissemos anteriormente.
*
Primeira, da aspiração do conhecimento humano faz parte o desejo de enquadrar o sofrimento próprio e alheio no sistema do universo. Segunda, as interpretações do sofrimento não podem ser uniformes, pois o sofrimento é multiforme e propõe inúmeros enigmas. A pergunta “por quê” retorna, no Antigo Testamento, com insistente pertinácia, sobretudo nos textos de orações (cf. Sl 10.1,13; 22.1; 42.9; 44.23s; 74.1,11; Jr 15.18; 20.18; Jó 3.20; 9.29; 13.24; 19.22).
*
“Quem pergunta dessa forma não pode satisfazer-se com a simples descrição do sofrimento. Ele precisa inquirir por causas e objetivos que o cercam e torná-lo, assim, compreensível. Donde provém o mal que provoca o sofrimento? Qual é a relação entre o sofrimento e os sistemas de valores e normas em vigor? Qual é o efeito do sofrimento sobre o indivíduo e a comunidade? Pode-se evitá-lo ou curá-lo? A dor constitui importante ensejo para a pessoa meditar sobre Deus e o mundo. E, em realidade, somente falamos do sofrimento humano quando esse processo meditativo e interpretativo está em andamento”, segundo os autores Gerstenberguer/W.Schrage (O Sofrimento na Perspectiva Bíblica).
*
A ideia de que o sofrimento seja eventualmente castigo de Deus não está muito distante do conceito da expiação, que o poeta compositor do Salmo 88 quer transmitir, porém sob revolta. Pressupõe-se um sistema democrático igualitário, de justiça social, como o sistema que deve funcionar. Seria o nosso caso, no Brasil, onde o judiciário funciona somente para o rico? A sociedade que conhecemos, por exemplo, a pretexto de condenação por corrupção, iguala os crimes e as penas sentenciadas a um político ou a um empreiteiro poderoso, como castigo justo por transgressões cometidas? Sob a responsabilidade do Estado, cumprindo pena domiciliar com tornozeleira eletrônica, tendo como “cela” uma mansão num condomínio de luxo,  é comparável a estar confinado em um cubículo de 20 metros quadrados num presídio superlotado, compartilhado com  20 detentos — como se vê nos locais dos massacres de janeiro de 2017, onde o chamado “crime organizado” controla os presídios, e as autoridades judiciárias simplesmente “economizam” investimentos para humanizar as prisões, por decisão governamental?