AS FLORES ROXAS DA RUA ONDE ELA MORAVA

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AS FLORES ROXAS DA RUA ONDE ELA MORAVA
 faixa - folhas púrpuraA saudade me acompanha pelas esquinas
e pelas ruas da vida.
Uma enorme tristeza faz-me olhar para as janelas
da casa onde você morou.
Tantas vezes procurei seu rosto
Por trás das flores, gerânios, margaridas, dormideiras,
E as coisas simples, como as cortinas brancas rendadas,
Que poderiam esconder seu sorriso permanente,
Aos quais já estava acostumado. Não o vejo há muito.
Porque você foi embora… eu também…
[1]
Toma conta de mim uma saudade curtida em solidão,
Vivendo na dor de um sonho esmaecido,
Tendo que viver uma ilusão, amor que não seria recuperado.
É triste sonhar e ter que acordar, e viver
atormentado pela solidão e a saudade.
Coisas demais para um coração que não para de pulsar,
na lembrança do nome da amada.
[2]
Lembro da rua onde ela morava,
E me pergunto, as folhas roxas das quaresmeiras
ainda fazem um tapete de pétalas na calçada?
Gostaria de passar por lá, novamente,
e imaginar que ela está perto, dentro da casa,
embora tenha passado tanto tempo.
Sentiria o coração acelerar, como foi antes,
quando ia ver minha amada.
[3]
Será que o canto intenso dos canários,
na rua, ao entardecer, está somente na minha imaginação?
Será que conseguirei ouvir tal canto,
em outra parte da cidade onde ela mora?
O encantamento, porém, não está na rua onde ela mora,
mas naquela que estava atrás do portão da casa onde ela morava.
[4]
Preciso saber se ela ainda está perto.
Um sentimento forte toma conta de minha alma…
Passando por lá, as pessoas me estranharão…
Encarando-me, pararão, quando eu perguntar:
Ela ainda mora aqui?
Não me importarei se me acharem louco,
desses que esquecem a passagem do tempo,
e que ignoram que até as pedras mudam de lugar.
Precisarei apenas saber se estou na rua certa,
E que em breve reencontarei a minha amada.
[5]
Terá chegado a hora de eu ir, de madrugada,
em serenata, cantar os versos de Dolores Duran:
Olhe, meu bem
Nunca mais nos deixe, por favor
Somos a vida, o sonho
Nós somos o amor
Entre, meu bem, por favor
Não deixe o mundo mau
Lhe levar outra vez
Me abrace simplesmente
Não fale, não lembre
Não chore, meu bem…
[6]
E, então, colocarei por debaixo da porta, copiados em papel de seda, quem sabe amarfanhado, os versos de Vinícius.
Murmurando baixinho: são teus…
Minha bem-amada
Quero fazer de um juramento uma canção
Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente teu e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou, ninguém…
Minha bem-amada
Estrela pura, aparecida
Eu te amo e te proclamo
O meu amor, o meu amor
Maior que tudo quanto existe
Oh, meu amor”.
Derval Dasilio
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A DOR QUE SE CHAMA TRISTEZA

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flor do cactus 2
Frederich Chopin compôs uma melodia imorredoura que outros denominaram “Tristesse”. Uma composição em tom menor, profunda, que expressa saudade e sofrimento por uma grande perda. O que se pergunta como um curioso admirador da vida e obra desse compositor genial é: ainda irá surgir outro Chopin? Por que a genialidade musical, os motivos ocultos de cada composição, tem que ficar restrita à época do romantismo europeu? Por que Tristesse não pode ser dedicada, hoje, a cada homem ou mulher sofrendo na vida o banimento, o luto, a dor da saudade? Por que não a saudade de coisas belas, coisas boas, prazeres da juventude que experimentamos um dia, como a liberdade, as comidas, as frutas, os passeios, as paisagens, os amores que desapareceram nas brumas do tempo?

Poder fundir todas as levezas e características de cada época; criar um mundo interior infinitamente mais profundo que o mundo dominante do espaço virtual atual, é preciso. Um lugar que torna a saudade impraticável, inútil e desprezível, não poderia tornar-nos seres de esperança e paciência. Somos infinitamente pobres se não possuímos o poder de voltar no tempo, como sugere o poeta bíblico, e nos orientarmos pela esperança. Privilegiados são todos os que têm o dom de ouvir suas obras e captar a essência da simplicidade e beleza íntima dos acordes de uma melodia que nos emociona em qualquer tempo.

Tristesse, como parte da obra de Chopin, ensina a renunciarmos à cultura das coisas fúteis, rasas e superficiais, para nos jogar de cabeça na essência mais profunda da vida, num mergulho que desperte sensações verdadeiras em nossa alma. É o que se exige na leitura de um salmo como é o Salmo 42: “minh’alma tem sede de Deus”… Meu ser anseia pela beleza, nenhuma escuridão apagará a memória das coisas belas que já vivi, ou que ainda pretendo viver. Não quero “ser salvo” para um mundo cinzento que me obriga a ver as coisas desconexas, os horrores do cativeiro, das ausências de compaixão, de solidariedade, de misericórdia, como definitivas e inevitáveis, parece dizer o orante.

“Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei pela salvação da sua face. Ó meu Deus, dentro de mim a minha alma está abatida. Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado sobre mim. Contudo o Senhor mandará a sua misericórdia de dia, e de noite a sua canção estará comigo, uma oração ao Deus da minha vida” (Salmo 42
).
Derval Dasilio
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AMANHÃ…

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faixa - fallen leaves
Amanhã ouviremos de novo as sinfonias inacabadas, que Schubert e Tchaikovsky escreveram. Que, imitando a vida, terminam e nem dá para sabermos se acabaram. Num concerto de Rachmaninoff, esperando o segundo, ou quem sabe um terceiro movimento, o “grand finale” é obrigatório. Os trechos e temas ricos não se prolongam enquanto pedem repetição. Começaremos a meditar sobre as noções da beleza, imediatamente empolgados com a imaterialidade da criação musical, uma totalidade que não se representa materialmente, nem mesmo numa pauta musical impressa. Ouviremos as sinfonias que gostamos, sem dependermos da materialidade exigida para ser perpetuada em papel.

Mas, os sonhos do amanhã para os autoritários e belicosos são envoltos em chamas, eles pensam em incendiar as almas, provocar as guerras, estimular assassinatos. Os melancólicos, porém, pensam em sepulcros, em fantasmas, almas penadas; pensam em fugir da realidade, em eutanásia, em mergulhar nas escuridões da depressão, de fossa e tudo que é triste. Os que pretendem ser amantes da vida, contudo, não temerão naufrágios, querendo navegar em todos os mares. Não se impressionarão, ingênuos, com inundações, com desastres ambientais, nem com a lama tóxica. Os que, de fato, sonham com a sustentação da vida apreciarão a visão dos lagos, das margens dos rios cobertas do verde das florestas, admirando-se com o voo dos pássaros, da mulher linda cuja beleza nem se ousará nomear.

Amanhã, na música, as canções de quatro notas e o mais elementar ritmo binário serão abandonadas, todas as oitavas da composição serão reavivadas.
Amanhã, a consciência será alargada, pela respiração de puro oxigênio nos campos, e por dietas com alimentos naturais. E as pessoas voltarão aos passeios nos bosques e jardins, e se encantarão de novo com as árvores frondosas, e a multiplicidade variegada das flores tingidas de azul, rosa, lilás, amarelo, laranja e vermelho, coloridas pelo sol.

Amanhã, o amor será redescoberto, uma outra vez, e os enamorados, jovens, velhos, flutuarão num céu de ternura e de paixão, sem medo dos olhos severos do preconceito; pássaros quase extintos voltarão aos jardins, e ouviremos de novo o uirapurú cantador do norte em toda parte. Todos se divertirão sem ser obrigatória a autofotografia do eu imbecil, que goza consigo, exibindo-se para si mesmo. Voltará a diversão livre da propaganda que sujeita as pessoas aos custos empresariais, sem os quais, segundo os promotores, você sucumbiria em tristeza e escravidão da rotina. À sombra magistral da Liberdade, iremos para as paisagens que quisermos contemplar, quando e na hora que quisermos.

Amanhã será a hora dos cantores e dos que empunham os violões e as flautas; dos músicos:
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim…

[Chico Buarque/Edu Lobo]

Amanhã, será o dia para o jovem fazer poesia, ao invés de convocado por políticos falso-moralistas, irresponsáveis, golpistas, corruptos, fascistas, sonegadores dos direitos do povo, para ser espancado nas ruas e alvejado por bombas de gás e balas de borracha. O dia do passeio à beira do lago, a comunhão perfeita do inverno, aquecido sob mantas coloridas…

Amanhã, ciclistas abandonarão os automóveis, os ônibus e os trens, para gozar dos ares mais limpos, pelos subúrbios, pelos prados e campinas, nas tardes de verão.
Derval Dasilio
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AMANHÃ…

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AMANHÃ…

ARQUIVOS E REVISÕES TEOLÓGICAS

 faixa - fallen leaves
Amanhã ouviremos de novo as sinfonias inacabadas, que Schubert e Tchaikovsky escreveram. Que, imitando a vida, terminam e nem dá para sabermos se acabaram. Num concerto de Rachmaninoff, esperando o segundo, ou quem sabe um terceiro movimento, o “grand finale” é obrigatório. Os trechos e temas ricos não se prolongam enquanto pedem repetição. Começaremos a meditar sobre as noções da beleza, imediatamente empolgados com a imaterialidade da criação musical, uma totalidade que não se representa materialmente, nem mesmo numa pauta musical impressa. Ouviremos as sinfonias que gostamos, sem dependermos da materialidade exigida para ser perpetuada em papel.

Mas, os sonhos do amanhã para os autoritários e belicosos são envoltos em chamas, eles pensam em incendiar as almas, provocar as guerras, estimular assassinatos. Os melancólicos, porém, pensam em sepulcros, em fantasmas, almas penadas; pensam em fugir da realidade, em eutanásia, em mergulhar nas escuridões da depressão, de fossa e…

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POEMA PARA O ONTEM E O AMANHÃ

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POEMA PARA O ONTEM E O AMANHÃ

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[+][+][+][+][+][+][+][+][+][+][+][+][+][+]faixa - caminhando_pra casa
Ontem, à hora da ave-maria, ao cair da tarde, na boca da noite.
Mulheres acendiam velas pelas almas, e rezavam o terço conforme mandava o padre… presencialmente, e não pela Tv.
A noite chegava, ondas brancas espumavam no escuro, o mar negro, que assim parecia tenebroso, lembrava monstros que ocupavam o passado, mas sempre reavivados pelos doidos no presente.
O homem continua lutando com gigantes e monstros interiores,
que o sufocam, e nem sempre é vitorioso quando luta com eles.
Era no anoitecer que o poeta ouvia os alarmes dos sinos tangidos entre altos pinheiros, no alto da colina onde estavam também os cemitérios e as tumbas dos imigrantes ancestrais que encheram a terra de pomares, de frutas, de flores. De esperança…
Perto, o córrego descia em cascata solta, rasa, aprumada, incontida, escorrendo pelo meio das pedras. Perto, o penhasco próximo da torre da igreja na colina.

Ontem.

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ANDORINHAS VOANDO ACIMA DOS MISTÉRIOS DA EXISTÊNCIA

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ANDORINHAS  VOANDO ACIMA DOS MISTÉRIOS DA EXISTÊNCIA

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andorinha do m. 5
Podemos contar fábulas, narrar histórias, construir ou repetir mitos, mas tudo isso constitui um entrave para a inteligência, a razão, do mesmo modo que nos parece um obstáculo à esperança de vida no além, segundo uma espiritualidade sobre o antes e o depois da vida biológica, conformada com os muitos credos existentes. A morte é uma realidade irrefutável, e a vida depois da morte é um assunto que sobrevoa os mistérios da existência.

O homem é como uma andorinha do mar, de asas enormes e pés minúsculos, de modo que é condenado a passar toda a sua vida fugindo e voando acima de furacões e tempestades, porquanto não pode permanecer pousado em algum lugar que lhe dê segurança permanente. Mas tem as asas, e pode voar. Não temos como explicar, do mesmo modo que não sabemos, no uso da razão, porque existem transcendências como o amor, a misericórdia a…

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PÁSSAROS, JARDINS E BOSQUES ME ENSINAM SOBRE A VIDA

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PÁSSAROS, JARDINS E BOSQUES ME ENSINAM SOBRE A VIDA

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derval - cartão
————
Na cidade, há homens que dirigem bancos, outros governam o mundo desde o alto de torres envidraçadas. Alguns vivem confeitando pães. Há outros que parecem loucos, e os que adoram os jogos e o brilho das luzes (disse um poeta anônimo). Os que preferem a arte de Picasso, a poesia de Neruda e Borges… o cinema como o de Bergman. Há arquitetos que fazem cidades, edifícios em curvas e formas redondas, como Niemeyer; planejam cidades, como Lúcio Costa, ou inventores do futuro, como Le Corbusier…

Há homens que negociam ações, outros que batem cartão de ponto. Alguns se jogam sem medo nos abismos, outros fazem rapel, ou pisam em terrenos pantanosos, duvidosos, sem medo de afundar… Há os que vivem da vida absurda, escondendo-se ou esforçando-se para não mentir ou trair, ocupados demais para reinventar a vida, atrás de um bom desempenho para alcançar coisa nenhuma. Outros que…

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POEMA PARA O FUNERAL DE UM AMIGO

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Faltado-me inspiração para algo melhor, e mais digno do grande amigo e mestre Claude Emmanuel Labrunie, preparei esta versão do notável poema de W.H.Auden. Espero que os ex-alunos e aprendizes do reverendo Claude apreciem, e entendam a altura na qual procuramos elevar esse homem notável.
———-
No Funeral de Um Grande Amigo
[W.H.Auden]
I.
Parem os relógios, desliguem os telefones,
Impeçam o cão de latir, tirem-lhe o osso suculento.
Silenciem as cordas do piano, abafem o som do tambor.
Tragam o caixão, permitam o choro das carpideiras.
Deixem os aviões zumbir no ar, e escreverem no céu a mensagem:
“Está Morto o Nosso Amigo”.
Ponham laços de crepe nos pescoços,
Brancos como os das pombas de rua.
Mandem guardas de trânsito usar
Luvas pretas, no cortejo.
II.
Ele era o meu norte, meu sul, meu leste e oeste.
Era minha semana de trabalho, meu descanso no domingo.
Meu meio-dia, minha…

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FOSTE PRA MIM COMO UM DIA DE SOL

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FOSTE PRA MIM COMO UM DIA DE SOL
imagem p. livro
FOSTE PRA MIM COMO UM DIA DE SOL
Então, eu fiz um bem, dos males, que passei.
Fiz do amor uma saudade de você
E nunca mais amei, deixei nos olhos seus
Meu último olhar, e ao bem do amor eu disse adeus.
Caminho o meu caminho e, nos lugares que passei,
As pedras no caminho, são o pranto que chorei.
Escondo em minhas mãos, carinhos que eram seus,
E guardo sua voz no poema do adeus… (Luis Antônio)
[1]
Vinculos profundos com um amor que parecia tão lindo, como um dia de sol. Enganava-me a mim mesmo. O que parecia profundo era raso. Não era possível, então, submergir sentimentos profundos, como numa bela história de amor. Julguei que você faria parte de mim por toda a vida, como uma tatuagem, que subendendia seu nome. Pensei que suas lembranças morariam em mim, como se estivessem sob a minha pele. Mas seu nome se tornou apenas um decalque que logo se apagou, em minha pele.
[2]
Eu sacrificaria qualquer coisa para de ter você perto de mim, tempos atrás. Apesar de uma voz me alertando, nos devaneios noturnos, que repetia em meu ouvido: tolo, esqueça-a, porque ela esqueceu você há muito. Ela foi embora pra sempre. Desista de lembrar, acorda para a realidade… Mas vi que era inútil apagar você da memória, e deixar de pensar em você, que faz parte de mim para sempre.
[3]
Há vezes em que chorei, e as lágrimas derramadas foram secando as recordações, secando também minha alma. As lembranças foram saindo de mim, pouco a pouco. As palavras duras que pretendia lhe dizer foram suavizadas. De uma forma tão branda, sua presença foi esmaecendo na minha memória, saindo pelos poros de forma contínua e incontrolável.
[4]
Não houve engano, era inútil fingir. Era preciso dizer adeus. Era melhor esquecer. Era preciso partir, devagar, mas para sempre. Definitivamente. Necessitávamos ser jogados no mundo, e entregar-nos à sua humanidade, em sua negatividade, nos ódios, na intolerância, na raiva. Precisávamos cair no vazio do tempo imponderável. Mas isso não era exatamente o que se passava em minha alma. Minh’alma queria viver momentos inefáveis. Contudo, os cenários das incertezas e do medo dominavam nosso drama. Invadiam nossas histórias de amor. Porém, eram cenários provisórios, dominando almas ansiosas por estabilidade. Com sinceridade e coragem, era preciso  partir, para sermos livres um do outro. Separados seríamos felizes.
[5]

Sei que devo partir, /Só nos resta dizer adeus.
Ah, eu te peço perdão,/Mas te quero lembrar
Como foi lindo o que morreu.
E essa beleza do amor, /Que foi tão nossa
E me deixa tão só, /Eu não quero perder,
Eu não quero enganar, /Eu não quero trair.
Porque tu foste pra mim, meu amor,
Como um dia de sol.
(Vinicius de Morais/ Tom Jobim)
[*][*][*][*]

Nota
FALTAM PALAVRAS NA TRISTEZA DO ADEUS
confusão de formas
FALTAM PALAVRAS NA TRISTEZA DO ADEUS
[1]
Eu sei que no amor há chegadas e partidas
Chegamos e partimos juntos…
Escuto os ruídos de uma noite insone,
Os olhos fechados mergulham-me numa escuridão ainda maior.
Quando abro os olhos percebo que ainda é noite.
Há silêncio, um silêncio profundo.
Você, ainda a meu lado, parece triste,
Porque me disse adeus, mas não foi embora.
Se o adeus existe, há tristeza,
E eu convido você a vir comigo para ver o nascer do dia,
E você não quer…
Porém, me acompanha no silêncio.
Faltam palavras para explicar a tristeza do adeus.
Tanta tristeza existe, e você não vem comigo.
Prefere o silêncio, eu também…
[2]
A noite é calma e silenciosa.
Olho pela janela e vejo nuvens brancas
Tocadas pelo vento, iluminadas pela lua.
Nuvens que parecem fugir da escuridão sobre a terra.
O mundo inteiro dorme, no silêncio da noite,
À espera do amanhecer.
Desaparece de vista,
Enquanto a lua diminui seu brilho,
Deitando-se depois da colina.
No frio silêncio da noite aguardo a madrugada,
Queria que esta noite não terminasse nunca,
Para o dia não iluminar seus passos e nossos caminhos,
Quando nos separarmos
E estivermos sozinhos.
Mas a madrugada vem chegando,
Logo vai romper o dia, e você mais uma vez vai me deixar.
[3]
Não tenho mais ilusão,
O sol já vai raiar clareando o céu
E mais uma balada triste será ouvida.
Na manhã do adeus não falamos de perdão,
Porque não há o que perdoar.
Então, penso em você, fugindo da solidão noturna.
Na raiz da alma, um sonhador lamenta em tristes ais,
Como se fora possível, com a tristeza e os prantos,
Livrar-se da solidão ao raiar do dia…
Porém, as noites permanecerão, e retornarão,
Sobrecarregadas de paixão mal vivida à luz do dia,
E pela tristeza dos abandonados.
Porque um amor não vive somente ao fio do tempo noturno,
Nem desaparece aos primeiros raios do sol de um novo dia.

Derval Dasilio
[*][*][*][*]

FALTAM PALAVRAS NA TRISTEZA DO ADEUS

A ESPERANÇA ESTÁ DANÇANDO NAS RUAS

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MEUS AMIGOS

Sursum corda, erguei as almas! Toda matéria é Espírito”, dizia Álvaro de Campos. Voltou a esperança, / É o povo que dança / Contente da vida / Feliz a cantar / Porque são tantas coisas azuis / E há tão grandes promessas de luz / Tanto amor para amar de que a gente nem sabe… Canta Carlinhos Lyra, nos versos de Vinícius (Marcha da Quarta-feira de Cinzas).

Nossos desejos se ocultam ou são protegidos por sombras, ou névoas, lugar onde estão também os segredos dos sonhos, ou nos armazéns das escolas de samba, guardando alegorias e fantasias. Podem ser representados também na poesia, nas canções, no humor dos botequins, nas devoções da religiosidade popular, nas festas e procissões, nas celebrações litúrgicas…

Por que os pregadores insistem em esmagar as esperanças, quando o desejo dos homens é misturar-se com as fantasias, encarnar alegorias, cantar as canções do…

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INSUSTENTÁVEIS SEGREDOS DA ALMA PROFUNDA

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INSUSTENTÁVEIS SEGREDOS DA ALMA PROFUNDA
ele e ela escultura despedaçada_n
INSUSTENTÁVEIS SEGREDOS DA ALMA PROFUNDA
[1]Sei de segredos escondidos em cada página do livro da vida. Entre eles te encontro na palavra misteriosa do amor. Sei, porém, que teus segredos são invioláveis, e que ao mesmo tempo eles não representam uma realidade que não queres revelar a ninguém. E, nem deves oferecer revelações que não queres, ao mundo à sua volta.
[2]És mais bela porque também escondes os teus segredos, as coisas secretas guardadas aos olhos dos demais; as coisas que não te confundem com a multidão, e nem por isso trazem desolação à alma de alguém.
[3]Alguém como tu. Alguém, minha bem amada, que tenha feito de um juramento um poema; que tenha escolhido uma estrela, apenas, nas miríades do céu estrelado, para te encontrar entre as constelações. Alguém que tenha sido alvo de promessas de amor, que tenha dito que és maior do que tudo que existe, e que tenha prometido amar-te por toda vida. Esse alguém deverá ser considerado traidor, se cantou em versos as revelações dos teus segredos. Porque jamais se exige de quem amou, e a quem se entregou, revelando seus segredos, que devesse ser retribuído da mesma maneira.
[4]Porque é sagrada a inviolabilidade dos segredos de uma alma amante. Segredos são guardados no quarto proibido dos contos de fada. Pois o amor é um conto de lealdades, e não de traições. É ilícito e perigoso romper a fechadura desse quarto. Não devo, jamais, querer saber tudo sobre quem amo, e assim mantê-la à mercê do medo e da traição possível.
[5]Conheço-te, amada, e tudo farei para manter-te desconhecida, sem o medo de seres violada em teus segredos. Recuso-me a saber tudo sobre ti, pois é o teu mistério que me aproxima de ti e me faz amar-te. Quando eu te amo, tua alma desliza para dentro do meu abraço, e teu corpo penetra nas profundezas do meu corpo.
[6] O sol na pele, o sabor lembrado, do beijo, o gosto na língua, o cheiro, o perfume de jasmim nos cabelos, fazem parte dos teus mistérios. Um segredo faz parte da comunhão de um ser com seu eu profundo. Segredos se confundem com as variações e ilusões do mundo real, onde se misturam lembranças, arbustos verdejantes, limo nas rochas, pássaros, chuva fina encharcando a relva, orvalho nas flores, e o próprio seio de uma alma profunda. Felizmente indescritível e indevassável. O aparentemente insustentável peso de amar em segredo, contigo, minha querida, torna-se uma leve pluma esvoaçando sobre as árvores de um bosque em flor.
Derval Dasilio
[*][*][*][*]

DEEP IN MY HEART

Status

PAISAGEM IRREAL_n

DEEP IN MY HEART
The magic of springtime is around us tonight
Enchantment is borne on the breeze
And clothes in the silver of tender moonlight
The birds murmur soft in the trees
As deep in the shadow your eyes look in mine
Within them a soft flame gently glows
The breath of the night wind is filled with the scent of the rose
Oh, love while I live, I will always enshrine
Your love in the heart of a rose
Deep in my heart, dear
I have a dream of you
Fashioned of starlight
Perfume of roses and dew
Our paths may sever
But I’ll remember forever
Deep in my heart, dear
I’ll always dream of you.

I’ve waited a lifetime for someone to say
The things you are saying to me
And darling, believe every word that I say
Just look in my eyes and you’ll see
You smile and my tears have all melted away
My worries were all false and naught
It looks like the start of a beautiful day
Just holding you here in my arms
With you every day’s a beautiful day
As long as I’m here in your arms.
[Oscar Hammerstein] [-][-][-][-][-]
————–
NO FUNDO DO MEU CORAÇÃO
A magia da primavera está à nossa volta./ Há encantamento sob a suave luz da lua, nesta noite vestida de prata./ O suave murmúrio das aves, se ouve no arvoredo./ No fundo, nas sombras, seus olhos fitam os meus./ E dentro deles, brilha uma chama mansa e tênue./ Há leveza no vento da noite enluarada,/ Preenchida com o aroma de rosas orvalhadas…/
Oh, eu amo, vivo, enquanto lhe confesso meu amor./ Seu amor me impregna, guardado no meu coração, como o perfume de rosas que invade sutilmente os meus sentidos./ No fundo do meu coração, querida,/ sonho com você./ Sonho à luz das estrelas, enquanto aspiro o perfume das rosas úmidas no orvalho da noite./ Se seguirmos caminhos diferentes,/Eu vou me lembrar de você para sempre./ No fundo do meu coração, querida,/ Sempre sonharei com você./
Esperei a vida toda para dizer as coisas que estou lhe dizendo, querida./ Acredita nas minhas palavras./ Olha nos meus olhos, você verá que eles sorriem./ As lágrimas desapareceram, agora que lhe disse./ Minhas apreensões eram falsas, caíram no vazio./ É o começo de um lindo dia, agora que seguro você em meus braços./ Quando estou nos seus braços, amor, todos os dias são lindos.
[Oscar Hammerstein]
[Versão: Derval Dasilio]

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjqxY_C9onWAhXIJJoKHZqeB64QyCkIKTAA&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DrGf758oM5aQ&usg=AFQjCNHl4aM1CSX5Cr4CYAXhibd25DJd3Q

 

DA ALVORADA AO ENTARDECER DA VIDA [2]

Status

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Todos os dias começam com a alvorada. Choveu de madrugada, mas o claro da manhã faz tudo acordar ao redor. O galo cantou, e não tem jeito, o dia brota e as fontes continuarão a minar. Logo o céu azula na linha do mar, graças ao sol, e vem para clarear ainda mais o dia. Há sinais de eternidade acompanhando a alvorada. Também no rio que corre sempre para o mar, ou nas ondas que sempre batem nos rochedos, e depois se dissolvem na praia. E nasce o dia. Eternamente.
1.
Impossível é fugir do sentido panorâmico do nascer do sol. Nietzsche nos lembra da alegria nas alvoradas. O nascer do sol, para ele, é um ato de uma decisão irrevogável. O retorno da vontade de poder mudar as coisas, transformar o mundo. Quem sabe erguer-se a cada manhã, desperto para a vida, assume seu destino com vontade. Os primeiros raios de sol são símbolos da juventude: “Quero fazer o sol nascer. Sou o vigia da noite que vai proclamar a hora de despertar… a noite é uma longa necessidade de despertar”, disse o pensador. Desse modo, a eternidade exposta força o reencontro diário do ser com a necessidade dos outros seres. Os quais também merecem viver alvoradas na liberdade, projetando um mundo novo possível.
2.
Quem conseguiu a serenidade, apesar das agulhas venenosas, atiradas contra nós, das quais temos que nos desviar; apesar dos pesadelos e ingratidões que fazem chorar, e das ilusões incutidas no tempero da ganância, pode alegrar-se com a alvorada. O universo de Nietzsche equivale ao universo de Cartola, que também lembrou que “o mundo é um moínho”, um imenso moínho que gira sem parar, triturando o mesmo trigo, o mesmo alimento, para fazer o mesmo pão. Tal universo recorda o que fazer, para alimentar a vida, e não não para extinguí-la.
3.
Minha amiga, meu amigo, saudemos juntos as impulsões de cada novo dia. Estou contigo, se também estás aguardando o novo, que vai chegar. O galo da madrugada já cantou… O sol brilha a cada manhã, o sol traz impulsões sempre jovens. A vontade de ver o renascimento da vida aparece em cada alvorada. Cartola cantou: Alvorada lá no morro / Que beleza / Ninguém chora / Não há tristeza / Ninguém sente dissabor / O sol colorindo é tão lindo / É tão lindo / E a natureza sorrindo / Tingindo, tingindo / A alvorada… .

Derval Dasilio .
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SEM DEUS TUDO É SOFRIMENTO

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faixa - fallen leaves

Um dia busquei penetrar no que jamais foi revelado, fui às profundidades, resvalei pelas sombras para fugir do fogo das palavras que queimam, percorri atalhos para escapar dos caminhos perigosos, virei ateu num mundo de deuses, divindades que impõem desespero e agonia, sem esperança. Interpretei metáforas impossíveis buscando a simplicidade na compreensão do Grande Mistério. Procurei entender os que afirmam que Deus é uma realidade para além de toda e qualquer representação. Não consegui, pois toda descrição da divindade, como de quaisquer outras, exige o método e o uso da razão instrumental.

Não sei como chegar à interioridade íntima de um pensador como Meister Eckhart, e partir para as profundidades mistéricas de Deus, e do mundo interior dos que creem sem fazer perguntas. Afinal, o que é a serenidade contemplativa senão a reverência pelo que não se pode explicar? Paulo disse que Deus é tudo em todos. Jamais diria que Deus é “ab-surdo”, um ser que não é “nada”. Despojado de tudo, radicalmente, sim. Posso dizer, então: entendo porque Deus não quer ser “deus” de quem queira possuí-lo, e, dizendo amá-lo, também queira manipulá-lo. Deus é simples e pobre.

Para entendê-lo assim, precisamos ser também interiormente pobres, despojados, desapegados, sem pedir-lhe favores. É preciso nada querer, nada saber, nada ter, diria Faustino Teixeira, estudando Eckhart. Assim, estaremos próximos da serenidade necessária para a contemplação do Mistério, enquanto esperamos a luz. Luz que há de vir, na iluminação das profundezas ocultas da fé, e na confiança na obra que resgata e salva o homem, o ser perdido em despenhadeiros labirínticos, sem mapas e sem orientação.

Sem Deus, é tudo sofrimento, angústia, temor, desespero. Porque é dele que emana o amor, a compaixão, o cuidado, a solidariedade e a partilha que resgata e humaniza. É nele que encontramos tudo, depois de procurarmos em vão as rotas que nos livrassem da tristeza, do medo, do terror, do desespero e da solidão. Resistimos, porque cremos.

Compreendemos que o mundo seria aterrorizador, sem Deus. O mundo precisa de Deus, no entanto. Sua ausência, no coração do homem, desumaniza-o, empurra-o para os abismos. Sua ausência entrega-o ao desamor, ao desprezo, ao abandono, à exclusão e intolerância, à impiedade e ao sofrimento imposto às criaturas vivas. É por isso que cremos, e esperamos mais serenidade para entender os mistérios onde Deus se esconde para salvar e resgatar o mundo.

Derval Dasilio

RECONSTRUÇÕES – Elisa Franchiani

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faixa - gato-Me desconstruo e me refaço a cada instante, passo por mutações constantes, gosto de colagens, recortes de imagens .
Ora mergulho em águas turbulentas, ou flutuo suavemente sem tormentas, num lago de azul grafite. Escalo com esforços sobre humanos, picos íngrimes, desafiadores e num deserto de areias escaldantes me desfaço de mim mesma em meus suores.

Suplico por um prato de alimento e ofereço banquetes opulentos onde o champagne borbulhante em valiosas taças, passa de mão em mão.
Sou rede e cansaço o pecado e o pecador, sou a distância e o espaço, sou o riso e a dor

Sou a pia batismal, a água da vida, sou a mortalha, a urna funerária, começo e fim, cheganças e partidas.
Me escrevo e me apago na areia, me volatizo e condenso, me edito e deleto, sou ao mesmo tempo, pescador e sereia, caçador e presa, escuridão sepulcral e vela acesa.

Sou o chão e a semente, sou o erro e o perdão; o calor que abrasa , a nevasca a geada, sou o raio e o trovão.
Sou a mina e o mineiro, sou o carro, sou o boi, o ferrão e o carreiro, sou a carta e o carteiro, Sou réu e juiz, cantor e canção.

Sou a luz sou as trevas, sou a calma e o tormento, o passado e o presente, sou a moura do rio, a princesa encantada, a terra no cio, semente germinada, sou o fogo e água, sou bruxa sou fada,

Mil pedaços de mim, em cacos de espelho me estilhaço,
Me exumo e fênix, renasço, me abraço, me abraço, me abraço.
Elisa Franchiani

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ELA…

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Ela… Veio chegando de mansinho, assim como brisa leve e trouxe entre seus pertences além da vida pulsante, a alegria a esperança, o sonho bem dobradinho, o sorriso escancarado, a inocência de criança, a coragem e a teimosia e se atreve, a manter pela corrente, o medo, a angústia,a incerteza e deixa uma vela acesa pra espantar a escuridão. Traz guizos, flautas, fanfarras e desatou as amarras que prendem a solidão.
Parece encantamento, um certo quê de magia, esparge perfume e graça, deixa no ar poesia.
Um chamego, uma carícia, uma história de fadas.
Um gosto de pão caseiro,um cheirinho de alecrim, uma canção de ninar, um beijo atirado ao vento, um colo pra descansar.

Elisa Maria Franchiani

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A ORAÇÃO DAQUELE QUE É INTEIRAMENTE DEPENDENTE DE DEUS

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desenho. jesus. semana. der oraç

ORAÇÃO DAQUELE QUE É INTEIRAMENTE DEPENDENTE DE DEUS
“Procure sentir a natureza no ar que respira, em cada respiração, em cada pulsação… Na semente que germina, na planta que nasce, no botão de rosa que se abre… Nas ondas do mar, no barulho das cachoeiras, na correnteza dos rios, no por do sol… No orvalho das manhãs, no amanhecer e no anoitecer, no raio de sol, no clarão do luar, em toda a natureza, em todo o universo… Sinta a presença da (tua) natureza, em tudo e em todos, dentro de você”. Poderia ser um poema cristão, mas não é.

O mesmo terapeuta, que se inspira no culto à Natureza, propondo o restabelecimento da confiança de alguém sem esperança, ensina-o a dizer para si mesmo: “Eu sou meu constante apoio. Eu sou minha saúde. Eu sou minha proteção. Eu sou o perdão. Eu sou a perfeita satisfação de minhas necessidades, e “eu” sou a minha mais alta inspiração. Confio no fluxo da vida, pois sei que ela reserva para mim, sempre, o que há de melhor. Eu sou a Gratidão.

C.S.Lewis, pensador cristão, diria o contrário: “Eu oro porque não sou capaz de me ajudar. Eu oro porque estou desamparado. Eu oro porque a necessidade flui de mim o tempo todo, dormindo ou acordado”.

“Vamos crer em Deus, a intercessão quebra barreiras, remove muralhas, atravessa fronteiras e chega onde há grande necessidade e poucos recursos” (Pastor Bicudo, hippie convertido, pastor em São Tomé das Letras MG).

No mesmo sentido, Elben Lenz Cesar, nos lembraria, observando uma placa na saída da famosa cidade mineira, capital da espiritualidade esotérica no Brasil: “Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador — lugar mais alto, numa sala –, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus”.
(Mateus 5,14-15).
[Observações sobre a reportagem “As Muitas Espiritualidades em São Tomé das Letras”, Revista Ultimato, Maio/Junho 2016; recomendo essa leitura prazerosa sobre o interessante assunto proposto na capa da revista].
Derval Dasilio

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Nota

faixa flores na mata [3]

Tudo parece impossível, se não difícil de explicar, quando se trata de falar do tempo. Como explicar o êxtase, especialmente se for daqueles incomparáveis? Uma felicidade estética é inexplicável, o jeito é senti-la. O mesmo se dá com o tempo. Sentir o tempo é reconhecer a vida num cotidiano de simplicidade. Sem preocupações com o óbvio, posso descrever essa felicidade, quando muito, como sensação de estar ligado a outras existências alcançadas pela contemplação, pela curiosidade, pela ternura e a doçura de visões maravilhosas. Observar as cores de borboletas esvoaçantes, seus movimentos no meio das árvores, buscando o néctar que nunca se esgota, porque é infinito, permite-me gozar com o tempo que me é dado.

Lévinas disse que procuramos alhures a transcendência do infinito, quando de fato o infinito está no rosto do próximo, o ser-humano, o rosto de outro homem – ou de outra mulher –, com os quais já devíamos ter assumido as responsabilidades cabíveis quanto às suas vidas. E às nossas próprias vidas. Estar próximo de Deus e das plenitudes, vendo o rosto do próximo, significa dar sentido à duração do tempo, que talvez nem mesmo exista. Dar sentido à paciência de viver e sorver o tempo como a um vinho velho, em repouso por muitos anos para ficar melhor.

Suponhamos que para penetrar no mistério do tempo tivéssemos que esperar uma brecha numa muralha, ou galgar os muros de uma fortaleza, subir até a torre de onde se veem pradarias, bosques, colinas, córregos, flores do campo. Perguntaríamos sobre a brisa que sopra sobre os lagos, as serras, para depois sumir no mar. O tempo não passa de uma imaginação, como as perdas das coisas que queremos encontrar na noite das memórias, sabendo que não é mais possível uma busca do que nem existe mais. Amores perdidos para os quais nem mesmo adianta deixar a porta aberta. Nenhum deles entrará por ela, porque só a imaginação retira das sombras o que foi, antes, uma grande paixão. Um grande amor.

Derval Dasilio

NÃO ACREDITO NO TEMPO

Nota

faixa ramo com frutos Na velhice, o tempo me adverte sobre as últimas escolhas que devo fazer. Imaginemos que o tempo possa fazer a lua murchar, e que é preciso socorrer o luar, como dizia Tom Jobim, na canção: É preciso gritar e correr, socorrer o luar./Abre a porta pra noite passar,/Olha o sol da manhã./Olha a chuva,/Olha o sol,/Olha o dia a lançar serpentinas./Serpentinas pelo céu, sete fitas coloridas./Sete vias, sete vidas,/Avenidas pra qualquer lugar.

O tempo não impede a chuva de molhar a terra, de encher o rio. De lavar o céu cheio de nuvens negras, e trazer de volta o azul dos dias de sol. O riachinho de água limpa não pode ser impedido de se lançar às águas calmas do rio. O jasmineiro continuará a florir de branco as tardes, mesmo aquelas tardes de Gardel, tardes gris, onde gotas úmidas banham flores perfumadas. As roseiras nem sabem que sua fragrância será exaltada pelos poetas, continuarão a presentear olfatos, mesmo os contaminados pela poluição das cidades sem jardim. O tempo não impede amores puros, nem é dono dos pensamentos dos amantes. Nem impede os passarinhos de passear na calçada molhada, ou saltitarem nos jardins impregnados de primavera.

O sol brilhando e fazendo o céu mais azul, as rochas refletindo os raios de sol com seus cristais, a areia fofa da praia onde enterro meus pés, revelam-me lampejos de eternidade. O sol, o céu, o brilho dos cristais, não dependem do tempo. Duram dentro da eternidade. Sempre estiveram e sempre estarão ali, como contraponto à finitude humana. E só podemos sentir gratidão por sermos humanos e poder contemplar essas realidades enquanto estamos participando das mesmas, observando algo que está fora do tempo. Tudo isso nos oferece a sensação da eternidade. A permanência das coisas belas estimula a vontade de contemplar ainda mais o que nos é dado ver, sentir e gozar, enquanto nos aproximamos ainda mais do infinito.

Guardei no baú das memórias as canções que ouço José Carreras cantar. Ouvi Carreras e Kiri Te Kanawa, hoje, cantando Gershwin, Hammerstein, Rogers, Cole Porter, com os olhos umedecidos pelas lágrimas da saudade: “Tenho um sonho, eu nunca perdi o sonho que tenho. /Meu coração conserva doces visões. /É como uma luz intensa que brilha na escuridão das tormentas, /Luz que me guiará para sempre. /Fecho meus olhos, sinto você novamente / Quando sonho, eu sonho, quero continuar sonhando com você. /Desejaria ser também o seu sonho… /Como gostaria de ser seu sonho. /Sonho. Sonho cada dia, e você está perto deles. /Memórias foram semeadas e renascem, quando sonho com você, /Desejaria que o sonho durasse para sempre. /Toda vez que fecho meus olhos eu sei que você está ali /Então, de novo, sonho com você (Trad. livre: Dream in my heart).

Mas o tempo alerta para as escolhas que devo fazer, em minha velhice. Uma delas é não acreditar no tempo, mas usá-lo com prazer. Desse modo não penso na finitude, nem em escatologias. Assim, posso sentir a infinitude das coisas. Contemplar a eternidade das coisas belas é um caminho bom para ser feliz, e para antecipar a plenitude da vida.

Comparo a sensação de vácuo do tempo ao prazer indescritível de estar no meio das plantas, num bosque, em meio a árvores que brotaram, tantas vezes, mais de um século atrás. Cheirar o húmus por toda parte, ver orquídeas selvagens enlaçando os troncos onde se hospedou um dia uma semente trazida por uma ave qualquer. Ver e ouvir os pássaros que ali construíram seus ninhos, e depositaram ovos que fizeram eclodir novos pássaros sem interferência do tempo. E ouvir seus sons diferentes, do nascer do sol ao entardecer. Assim, posso contemplar o infinito, e concordar com Emmanuel Lévinas: é de Deus que vem a ideia do infinito e da eternidade.

Derval Dasilio .

O TEMPO É UMA ADVERTÊNCIA

CURTAS [6] – A ORAÇÃO DOS ATORMENTADOS

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OS SEGREDOS DA NOITE INSONE
A sede de vida aplaca-se durante a noite, mas a solidão diurna, mesmo depois da alvorada, se estende como afluente dos rios de sol.  Aprendemos, no entanto, a não ter medo da noite, nem dos ventos em constantes mudanças. Nada melhor que um dia novinho, despidos os segredos da noite, aprontando novas esperanças, novos enredos e novos capítulos de nossas vidas. Um dia novo é como um esteio que segura o teto do mundo para que ele não caia sobre nossas cabeças. Melhor, um novo dia é como um murmúrio de esperança. Depois, vem aquela tarde cantada por Vinícius de Morais, em sua longa temporada na Bahia:
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É bom passar uma tarde em Itapuã/ Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã/ Falar de amor em Itapuã / Enquanto o mar inaugura/ Um verde novinho em folha […] /Passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã /Depois sentir o arrepio / Do vento que a noite traz / E o “diz-que-diz-que” macio (do baiano)/ Que brota dos coqueirais / E nos espaços serenos / Sem ontem nem amanhã / Dormir nos braços morenos / Da lua de Itapuã /É bom passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã. 

[] A ORAÇÃO DOS ATORMENTADOS []
Somos condenados à aflição, transtornos e inquietude permanentes, porque oramos em favor de nós mesmos, e nunca conseguimos satisfazer anseios mais profundos sem Deus. Destinados a caminhar por toda a vida, “porque a cada caminho percorrido surge outro para percorrer” (Agostinho), não podemos parar, nem nos abster, porque um imperativo categórico empurra sempre para a frente, não nos deixando em paz, empurrando-nos para uma odisseia que não vai acabar nunca. Enquanto não há um ato libertador, o Espírito é um vento bravo que não cessa, na direção de uma “terra prometida” que parece nunca chegar. Um ser humano é um arco retesado com a flecha apontando para estrelas inatingíveis, disse alguém, com extrema sabedoria.
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O desconhecido seduz, por isso o ser humano rompe barreiras e irrompe em regiões ignotas. Gosta de decifrar enigmas, e de preencher espaços vazios, sem saber por quê. Sempre atormentado, vive na inquietude, nunca se acalma. Forças incompreensíveis o arrastam para o infinito, enquanto busca o absoluto, completo, acabado em definitivo. Por isso, pensa sobre si mesmo, e sobre as razões de sua existência, sempre procurando respostas para as perguntas de um questionário que nunca chega ao fim. É preciso orar, e descansar na espera de Deus. Não posso duvidar. Se duvido, mergulho no desespero e me sujeito ao pior dos infernos, que é a desesperança.
Derval Dasilio
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Há na ideia do perdão algo além do simplesmente humano. O impossível age no processo de um  perdão incondiscinal, uma vez que o perdão que perdoa o imperdoável é um perdão impossível. Ele faz o impossível, proporciona o impossível, perdoa o que não é perdoável (Jacques Derrida).

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [1]
Mesmo que existam objeções à pergunta sobre Deus, não há como negar uma espiritualidade profunda, como na obra musical de Johannes Sebastian Bach, onde se constata uma dimensão da existência que extravasa uma inspiração de grande importância, que remete a um mistério inigualável. Inspiração procurando alcançar na  beleza perfeita aquilo que podemos chamar de Deus. Rubem Alves disse, uma vez: “fora da Beleza não há salvação”, contrariando o que fora dito anteriormente: “fora da Igreja não há salvação”.

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [2]
O extraordinário arquiteto Daniel Libeskind, judeu, não religioso,  perguntado se existem cargas de espiritualidade, onde Deus estaria implícito, respondeu que considera óbvio, iniludivel, que a compreensão da espiritualidade na busca da Beleza, está nos grandes nomes da arquitetura, mesmo entre os considerados “hereges”, com Gaudi e Le Corbusier. Van Der Rohe era um “místico” que mantinha os textos de Tomás de Aquino e Santo Agostinho, obrigatoriamente, em sua cabeceira. Todos eles trazem fortes elementos de espiritualidade. Os monumentos grandiosos que construíram comprovam que a liberdade e a espiritualidade orientam suas obras. Elas são desprovidas da mediocridade repetida na cópia do já existente.

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [3]
A fé poderia ser um estímulo para a religião. Refiro-me à fé na liberdade. Ter Deus no centro da história das religiões não significa que as palavras certas sobre a espiritualidade da existência estejam em seu propósito. Não se pode dizer que a religião representa a liberdade e a busca do mistério da beleza perfeita. Infelizmente, a aspiração religiosa, em muitos momentos, parece ser a de colocar Deus como um álibi  para outros fins muito menos nobres que a busca da liberdade e da beleza. Mas, inegavelmente, por isso mesmo, devemos à religião a liberdade de duvidar que ela representa o que diz representar, em termos de convicções absolutas.

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [4]
Os riscos terríveis para a fé e a liberdade, nos últimos anos, se apresentam em demonstrações sucessivas  de que a religião cristã, por exemplo, vem percorrendo um caminho entortado  no rumo da liberdade e da beleza ética. O grande valor da religião, no sentido da liberdade e da ética é substituído pela trivialidade e superficialidade do materialismo religioso autoritário contra a espiritualidade que a mesma representaria. Comparemos uma obra de arte destacada como  valor espiritual permanente da beleza — uma ária do oratório Paixão Segundo S.Mateus, de Bach por exemplo. Comparemos a arte sacra que perpassa a história da religião cristã com um balcão de negócios do “gospel business“, onde se vendem bugigangas ditas como louvor abençoado, justificando atos que podem ser qualquer outra coisa, menos atos de beleza estética de fé. Aí se encontrará um perigo de destruição da fé.

PERGUNTANDO SOBRE DEUS [5]
No sentido profundo proposto na busca da beleza e da espiritualidade, o conflito, a violência e o sofrimento, deste modo, são inevitáveis. Porque a fé é desviada em seu sentido libertário, enquanto é destronado o prazer e a felicidade do encontro com a beleza. Alguém já disse que a busca da liberdade não significa apenas ser livre de alguma coisa, mas ser livre para alguma coisa mais importante. A liberdade de crer  em Deus nunca seria a simples sujeição a princípios religiosos, mas a busca dos grandes valores espirituais propostos na religião que se envolve com a liberdade e a beleza.

Derval Dasilio

[CURTAS 5] OS SEGREDOS DA NOITE INSONE

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OS SEGREDOS DA NOITE INSONE
A sede de vida aplaca-se durante a noite, mas a solidão diurna, mesmo depois da alvorada, se estende como afluente dos rios de sol.  Aprendemos, no entanto, a não ter medo da noite, nem dos ventos em constantes mudanças. Nada melhor que um dia novinho, despidos os segredos da noite, aprontando novas esperanças, novos enredos e novos capítulos de nossas vidas. Um dia novo é como um esteio que segura o teto do mundo para que ele não caia sobre nossas cabeças. Melhor, um novo dia é como um murmúrio de esperança. Depois, vem aquela tarde cantada por Vinícius de Morais, em sua longa temporada na Bahia:
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É bom passar uma tarde em Itapuã/ Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã/ Falar de amor em Itapuã / Enquanto o mar inaugura/ Um verde novinho em folha […] /Passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã /Depois sentir o arrepio / Do vento que a noite traz / E o “diz-que-diz-que” macio (do baiano)/ Que brota dos coqueirais / E nos espaços serenos / Sem ontem nem amanhã / Dormir nos braços morenos / Da lua de Itapuã /É bom passar uma tarde em Itapuã / Ao sol que arde em Itapuã / Ouvindo o mar de Itapuã / Falar de amor em Itapuã.
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O por do sol, porém, termina a farra de cachaça de rolha com água de côco, que o poetinha amava. A noite se aproxima, passado futuro povoarão os sonhos da noite. Mas há, na noite, o consolo das coisas que não envelhecem jamais, como o amor. Tenham sido o que foram, os sonhos do passado estão presentes, mesmo que os espinhos e caminhos tortuosos não tenham permitido suas realizações.
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SE O SOL VAI DESAPARECER…

O sol vai anoitecer lenta e pacificamente, também, daqui a uns 6,5 bilhões de anos. A nuvem de gás chamada de protoestrela, ou primeira luz no Universo, que agora produz energia e calor em expansão constante, se extinguirá. Por que queremos ser eternos, se o sol que aparece todos os dias na nossa janela vai desaparecer? O entardecer já nos prepara para a noite eterna, reservada a toda a criação. O fotógrafo austríaco Edgar Moskopp passou seus dias retratando pores-do-sol pelo mundo. Mas o gaúcho de Porto Alegre garante que não há pôr-do-sol mais bonito do que aquele que se estende além do lago de água doce, que é o Guaíba.

Falando sério, no entardecer da vida não cabe a saudade. Nem é preciso mais pedir perdão porque gozamos a vida, sorvendo cada tempo de felicidade que nos foi dada. Se a vida não foi tão aproveitada, não adianta mentir. Quando chegamos já chegamos partindo, ou preparando a bagagem para uma nova viagem. Com o amor. O amor é cheio de compaixão e gratuidade, como uma flor que esparge perfume; como o sol que não depende de uma janela especial –  assim pensavam os antigos –, aberta no céu para brilhar e espargir sua luz; como o orvalho que cai nos gramados, arvoredos e flores durante a noite, sem autorização de ninguém.

A noite começa, o corpo sozinho é imerso na solidão impossível de evitar-se, pois o sono é prelúdio da morte, como disse Shakespeare. Fez-nos antecipar a solidão anunciada por Heidegger, quando disse: “o homem é um ser destinado à morte”. Sozinho. O filósofo disse também que a única propriedade que possuímos é a morte. Logo, temos um caminho de solidão sendo percorrido, até  que tomemos posse da solidão final.
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TOM ZÉ LEMBROU: TUDO QUE SOBE DESCE…

A plenitude é o topo do cume mais elevado que galgamos em nossa vida, a realização total de nossa humanidade. Porém, no fim da vida, todos voltamos ao horizonte das planícies. Desencantos ficam para trás, como as madrugadas e os alvoreceres. Tom Zé cantou muito bem: Tô bem de baixo prá poder subir / Tô bem de cima prá poder cair / Tô dividindo prá somar depois/ Atrás da vida pra poder morrer. Enfim, anoitece, vamos partir na boca da noite. O dia não precisa de autorização para ir embora ao fim da tarde. Nós também não precisamos de autorização para partir. “O homem é um ser habitado por um desejo infinito que só o Infinito pode preencher”, disse alguém. Por isso buscamos a plenitude nos lugares mais altos do espírito. Mas devíamos estar conscientes de que é a terra que nos acolherá, no final.

DEUS COMO EXPRESSÃO DA ALMA PROFUNDA [*][*][*][*][*][*]

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Gaston Bachelard lembrava: é preciso descer ao fundo do ser, sem preocupar-nos com a tagarelice da dúvida. A alma em devaneios antigos e recentes emerge das profundidades, reconciliando o passado com o presente. Quanto mais profundo é o ser, mais luzes serão necessárias para iluminar os abismos da existência. Citando Henri Bosco, disse também: “para exprimir a alma profunda do ser, me vinha a ilusão de não mais encontrar-me no mundo real, composto de limo, pássaros, plantas e arbustos vivos, no próprio seio da alma, cujos movimentos e calmarias se confundem com minhas variações interiores”.

Ocorreu uma coisa com o profeta Elias, que procurava intensamente a experiência de Deus, orando. Então, uma voz lhe falou: “Sai de onde estás e coloca-te diante da montanha. Um terrível furacão deslocava a rocha e quebrava os rochedos,  mas Deus não estava no furacão. Depois, houve um terremoto que abria fendas no solo, mas Deus não estava no terremoto. Em seguida, um incêndio de grandes proporções, mas Deus não estava no fogo. Depois do fogo soprou uma brisa mansa, cuja suavidade era incomparável. E, então, lá estava Deus”.
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A história sugere que Deus é um sopro leve e suave, na experiência que alcançamos de sua bondade, ternura, misericórdia e cuidado. Sugere coisas importantes para a nossa espiritualidade, tantas vezes submetida a furacões, verdadeiros terremotos, os quais abalam nossas estruturas a ponto de fazer-nos sucumbir. Incêndios que parecem devorar-nos a alma e o ser, ameaçando nossa integridade total.

Com paciência, poderemos observar que os mesmos estrondos que uma peroba de 30 metros faz ao ser derrubada, em segundos, é o contrário do silêncio da floresta que demora séculos para formar-se. Em segundos, um barulho ensurdecedor. Em séculos, um silêncio que abriga gerações de pássaros; de árvores, flores e frutos. Um silêncio que faz crescer o respeito à natureza, o amor à beleza. Principalmente, na humildade diante do infinito e das coisas eternas. Devemos sentir-nos como parte dessas realidades.

Derval Dasilio


DEUS PULSA NO CORAÇÃO DE QUEM AMA

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 “Deus é uma suspeita de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso”. Imaginamos… não temos uma confirmação.  Mas os caçadores inventaram gaiolas. O pássaro preso na gaiola acaba empalhado, para confirmar, morto, a imagem do pássaro que ele foi um dia. Vira ídolo (como divindades religiosas do antigo Egípcio com cabeça de passarinho).  São as prisões religiosas ou doutrinais sem as quais carcereiros fundamentalistas e ortodoxos “certinhos” não sobrevivem. E tudo o que vive é pulsação de um coração sagrado. As aves dos céus, os lírios dos campos… até o mais insignificante grilo, no seu cri-cri rítmico, faz a música do Grande Mistério.  Sabem que Deus é o grande coração do universo. Deus é puro amor e beleza e justiça.

É preciso esquecer os nomes de Deus, para entendê-lo. Você vê a beleza ao redor, Deus está ali. Tudo que é belo – como o amor à justiça, à ética do cuidado, aos direitos humanos; ao carinho, à bondade, à solidariedade, vem de Deus. Tudo que é feio, coisa que causa horror e temor, símbolo de castigo e violência, o preconceito, a discriminação, a injustiça, o esforço para submeter as pessoas, o abandono dos fracos e dos necessitados, é contra Deus. Isso é o retrato, na verdade, da nossa humanidade.

Se alguém gosta de um “deus” feio vai torná-lo feio. Mas Deus amou o mundo, apesar da feiúra dos nossos costumes; quando o descrevemos conivente com os horrores do nosso mundo; quando fazemos dele a nossa imagem tenebrosa… O deus feio, nojento, raivoso, cruel, que está na violência, na miséria, nas desigualdades, na fome, nas doenças que podemos curar e não curamos, é criação humana. O egoísmo em não aceitarmos repartir a vida melhor em solidariedade e cooperação com os que sofrem faz parte desse retrato feio de Deus.

Quem disse que “a reverência pela vida, a generosidade, a misericórdia, a compaixão, a solidariedade, são a forma mais alta de oração e reconhecimento de Deus” merece o nosso respeito. Disse-o muito bem. Muitas pessoas que jamais pronunciam o nome de Deus o conhecem, por terem reverência pela vida, por cultivarem as formas de amor ao próximo e ao distante espontaneamente. E não porque um doutrinador sistemático lhe ensinou.  

Há também pessoas que procuram um Deus no mundo invisível, após a morte, um “céu” imaginário, sem graça, tudo azul, para se viver eternamente. Devem estar enganadas, porque isso é egoísmo religioso! Querem um céu só para si, os outros que se danem. Mas Deus não está no céu, está aqui. E nenhuma religião tem a chave ou a senha do portão do céu, como pretendem alguns. Além disso, é impossível aprisionar Deus nos arquivos, nas confissões, e nas doutrinas sobre “deus”.

Deus é beleza de sentimentos, de atitudes, no olhar de quem sabe amar” (Xico Esvael escreveu uma linda canção, com essa frase). Por isso ele ama os desertos e também seus oásis e  florestas. Porque é aí que se escondem as fontes da vida. Quer ver Deus? Veja a beleza do sol que se põe no entardecer, no verão. Não pense. Você quer ouvir Deus? Ouça a “Sonata ao Luar”, de Beethoven . Entregue-se à beleza da música, sem pensar. Quer sentir o cheiro de Deus? Vá para o jardim mais próximo e respire fundo o cheiro das flores, das árvores, não pense no formato das pétalas, nem se as flores têm espinhos; não pense na altura das árvores, goze a sua sombra.

É assim, desse jeito, que você sente a existência profunda de Deus. E “Deus amou este mundo de tal maneira que deu-nos seu Filho”, para que crêssemos  nele. E Jesus apresenta-nos o melhor desenho de Deus que conhecemos: o amor deve governar o mundo… deixem a misericórdia e a justiça deslizar como córregos, águas cristalinas entre as pedras…  Jesus, sim, torna  Deus visível, como apontava o profeta do Israel antigo. Visível no olhar de quem ama a justiça, como Xico Esvael cantou. Tudo que descrevemos aqui, como sentimento de Deus, reflete Jesus e sua entrega amorosa… “porque Deus amou o mundo”, e continua a amá-lo, e a amar-nos, através de Jesus. Está escrito no Evangelho: “Este é o Filho da minha alegria”. Quem precisa de mais?

Derval Dasilio

Livro no prelo: …Minha morte morrerá comigo | Testamento de um filósofo


 

FALANDO DE DEUS E ERRANDO FEIO…

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Perguntaram a Rubem Alves: Qual seria a sua resposta se uma criança de dez anos de idade lhe perguntasse o que é fé? – “Usaria uma metáfora poética para dizer o que é fé. Fé é aquilo que uma pessoa que voa de asa delta tem de ter no momento de se lançar no espaço vazio, do alto. Sem medo. Ter fé não é acreditar em seres do outro mundo, anjos, céu, inferno e nem mesmo no ‘deus’ que sai da boca dos homens. Ninguém precisa do diabo para acreditar em Deus. Fé é uma atitude perante a vida, intraduzível em palavras. Sobre essa confiança nos lançamos às incertezas. A fé só existe diante do abismo das incertezas”. Incerteza não é dúvida.

Podemos entender Deus, quando o vemos separado de todas as imagens construídas sobre o que não se pode dizer, porque não há palavras ou línguas sagradas que possam defini-lo. Nem a Bíblia!, onde os escritores apresentam Deus de muitas maneiras, conforme suas crenças: ora nos poemas de fé, ora na boca de contadores de histórias ancestrais, ora pelos profetas, ora pelos sacerdotes, ora pelos guerreiros sanguinários que não hesitaram em exterminar velhos, mulheres indefesas, crianças, para tomar terras e riquezas de outros povos… São modos e crenças para descrever Deus conforme suas necessidades. Porém, todas as vezes que lidamos com a beleza, a misericórdia, o amor e a bondade, estamos lidando com o nome sagrado de Deus. Na Bíblia, os evangelhos são mais claros, quando Jesus descreve-o como a realidade acima de todas as realidades.

Dizer que Deus é um espírito imutável, símbolo de poder, de sabedoria, de santidade suprema, falar que Ele é a verdade, que é onipresente, onisciente, é o jeito humano de desenhar uma imagem, apenas. Alguns desenham essa imagem como um juiz implacável, ou como um tirano torturador de chicote na mão; outros o desenham como um velhinho sentado num trono celestial mandando anjos fazer o serviço de segurança e proteção de cada um de nós; e outros, como um pai amoroso, complacente, que sempre tira por menos as estripulias dos filhos desobedientes. Pois é, nós apenas desenhamos o que pensamos. Nada tem a ver com a experiência das pessoas sobre o que realmente Deus deveria ser para elas. Nunca vi um desenho que mostre Deus solidário, em fraqueza, sofrendo diante da imensa maldade praticadas pelos homens e mulheres. Desculpe, minto… através do próprio Jesus, que conhecemos muito bem como o filho, o evangelho fala muito bem do Pai que sofre e chora com os sofredores, sentindo as dores do mundo. Estou com Jesus e não abro. Ele o chamou de Painho, como se fosse um baianinho lá de Caculé. Quer dizer, Deus é justo e terno ao mesmo tempo.

Uma velhinha de voz trêmula, pele cheia de rugas pediu a um sábio que era ouvido por um grupo: “Fale-nos sobre Deus…”. Fez-se silêncio. Olhou para o vazio. Vagarosamente, um sorriso foi-se abrindo no rosto do apóstolo. “Quantas pessoas aqui na minha tenda estão pensando no ar?”, ele perguntou. “Por favor, levantem uma mão…” Ninguém levantou a mão. Ninguém está pensando no ar. Ninguém nem sabe direito o que é o ar. E, no entanto, todos nós o estamos respirando. O ar é a nossa vida e não precisamos pensar nele e nem dizer o seu nome para que ele nos dê os cheiros e os sabores da vida (Rubem Alves, “Perguntaram-me se acredito em Deus”, 2010). Só quem duvida utiliza os desenhos sobre Deus.

A dúvida sobre a existência de Deus é como uma onda vista de longe, no mar. Mansa à distãncia… pouco a pouco ela se aproxima. E de repente é um monstro espumante, babando, capaz de cobrir alguém e sufocá-lo. Alguém que se afoga em dúvidas só pensa no ar. Deus só é assim, sufocante, para quem duvida. Não é preciso pensar nele e pronunciar o seu nome. Ao contrário, quando se pensa nele o tempo todo é porque está se afogando nas ondas da dúvida…  “Deus é como o vento”, disse João. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai.

 

MAIS CURTAS… [5]

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[*][*][*]  DEUS COMO EXPRESSÃO DA ALMA PROFUNDA [*][*][*]
Gaston Bachelard lembrava: é preciso descer ao fundo do ser, sem preocupar-nos com a tagarelice da dúvida. A alma em devaneios antigos e recentes emerge das profundidades, reconciliando o passado com o presente. Quanto mais profundo é o ser, mais luzes serão necessárias para iluminar os abismos da existência. Citando Henri Bosco, disse também: “para exprimir a alma profunda do ser, me vinha a ilusão de não mais encontrar-me no mundo real, composto de limo, pássaros, plantas e arbustos vivos, no próprio seio da alma, cujos movimentos e calmarias se confundem com minhas variações interiores”.

Ocorreu uma coisa com o profeta Elias, que procurava intensamente a experiência de Deus, orando. Então, uma voz lhe falou: “Sai de onde estás e coloca-te diante da montanha. Um terrível furacão deslocava a rocha e quebrava os rochedos,  mas Deus não estava no furacão. Depois, houve um terremoto que abria fendas no solo, mas Deus não estava no terremoto. Em seguida, um incêndio de grandes proporções, mas Deus não estava no fogo. Depois do fogo soprou uma brisa mansa, cuja suavidade era incomparável. E, então, lá estava Deus”
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A história sugere que Deus é um sopro leve e suave, na experiência que alcançamos de sua bondade, ternura, misericórdia e cuidado. Sugere coisas importantes para a nossa espiritualidade, tantas vezes submetida a furacões, verdadeiros terremotos, os quais abalam nossas estruturas a ponto de fazer-nos sucumbir; incêndios que parecem devorar-nos a alma e o ser,ameaçando nossa integridade total. Com paciência, poderemos observar que os mesmos estrondos que uma peroba de 30 metros faz ao ser derrubada, em segundos, é o contrário do silêncio da floresta que demora séculos para formar-se. Em segundos, um barulho ensurdecedor. Em séculos, um silêncio que abriga gerações de pássaros; de árvores, flores e frutos. Um silêncio que faz crescer o respeito à natureza, o amor à beleza. Principalmente, na humildade diante do infinito e das coisas eternas. Devemos sentir-nos como parte dessas realidades.
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UM GUIA PARA A AVENTURA NO INTERIOR DA ALMA HUMANA
A aventura interior nos faz lembrar da presença do Pai de todas as coisas, em tudo que nos cerca. Aprendemos que não podemos transferir indefinidamente o que nos faltou desde que nos tornamos conscientes de nós mesmos no mundo. Neste momento podemos sentir o quão importante é compartilhar a realidade do outro ser, do todo, e de Deus, que é a maior das realidades. Deus é uma grandiosidade acima de qualquer grandeza. Não podemos encher-nos de grandeza, envolvidos pela megalomania da razão, diante da realidade maior, que é o Pai de toda a criação. A palavra de Jesus ensina: “aprendam a observar estas coisas, comigo, que sou manso e humilde”.
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O que um budista indiano chama “ahimsa” um israelita bíblico, como Jesus, chamaria de “rahamim”. É a mesma atitude de compaixão, originalmente “não-machucar” o outro. Uma atitude que se sobrepõe à vontade de dominar o outro a qualquer custo, pisar no pescoço de alguém para passar à frente, entrar na realidade do outro para dominá-lo. O hebreu usa a palavra “rahamim” (“ter sensibilidade, sentimentos”, “ter entranhas”, “ter coração”: o coração é sede dos melhores sentimentos, pensa o israelita bíblico), para identificar a compaixão de Deus pelo oprimido, pobre, aflito, despojado, sem-posses, sem-nada. Deus vê seus filhos com extremo cuidado, acolhendo-os sempre com amorosa compaixão.
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Os planos do ser-pessoa são diferentes, por si mesmos, em suas variedades, manifestações, diferenças e diversidades. É preciso reconhecer a beleza do ser em si mesmo, e respeitá-lo. Ser unido com o Pai, como Jesus disse (“onde eu estou, quero que vocês estejam”), passa a ser o mais importante que tudo. Isto é, como disse Jesus, “eu e o Pai somos um, e vocês devem ser unidos conosco, nos gestos e nas atitudes”. Jesus quis compartilhar as qualidades paternais de Deus com seus irmãos, que somos nós, no relacionamento com todos os outros, indistintamente, sejam quais forem aqueles outros.
Derval Dasilio

CURTAS – DE ANNABEL A EVA – MEDITAÇÕES

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MEDITAÇÕES –
EVA NASCEU… BEM-VINDA, MINHA NETA
Acabávamos de ganhar mais uma neta. Seu nome é Eva. Ora, é o nome da primeira mulher, saudada como “mãe de todos os viventes”, nas Escrituras hebraicas. A vida é um presente de Deus. Galgar aos céus, mergulhar no infinito, descobrir o que está por trás das estrelas… é tudo que desejamos. Queremos ser felizes com a vida… Importantes pensadores, em todos os tempos, destacaram essa busca de sentido que está no ser humano, homem e mulher; queremos descobrir, desvendar o eixo em torno do qual nos movemos internamente.
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Que motor faz girar esse eixo? Para muitos, trata-se de uma dinâmica interior, profunda. Seria a afirmação da vida imortal, sobremaneira. Princípio de frustração. Transcendência duvidosa. Não é possível manipular a realidade a nosso favor, quando se trata das potencialidades que o desejo aponta, na direção do infinito.
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Como negar que nosso corpo já começa a fenecer, finitos que somos, limitados, desde o dia em que nascemos. O desejo de plenitude, ser um ser humano completo, é o apelo profundo de nossa interioridade.
Derval Dasilio
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UM SALMO PARA EVA, MINHA NETA
Cada um de nós é um Adão e uma Eva, encantados com os mistérios da “árvore do conhecimento”, mas a árvore que está no meio do Paraíso é a “árvore da vida”. Então, toda felicidade, bem-estar, prazer de viver, já nos indicaria a plenitude que pretendemos alcançar, que pode e deve começar aqui. É isso que minha neta evoca, no seu nascimento. Talvez seja isso que o primeiro Salmo da Bíblia queira nos apontar: a vida como uma árvore plantada à beira do riacho será bem alimentada, capaz de crescer e dar bons frutos.
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O Salmo 1 é um discurso lindíssimo da poesia hebraica que convida a observar a Criação e o sentido da felicidade desejada, quando nasce uma criança.  Seres cósmicos, do grande universo, aparecem personificados no cotidiano humano com dinamismos sobre humanos. Que significa uma árvore forte, bem plantada, produtiva, senão uma vida harmonizada com o sentido das coisas do universo, desde a terra aos espaços estelares ainda não alcançados, embora sondados pela curiosidade do conhecimento?

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RAÍZES DA ALMA QUE AFUNDAM NA TERRA
Uma árvore plantada ao longo de um córrego de águas limpas não é uma árvore plantada à beira do abismo, em terreno arenoso ou sujeito a deslizamentos destrutivos.   As imagens poéticas nos remetem a símbolos inescapáveis, fundados no chão da vida. São símbolos (symbolos = o que une, no grego) daquilo que nos dá força para vencer tempestades, furacões, terremotos, que poderiam abalar nossa busca de plenitude.
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As raízes dessa árvore se afundam na terra, mãe de todas as coisas, impedindo com sua força que a destrutividade dos acontecimentos desagregadores da vida nos esmaguem ou nos arranquem do solo onde fomos fundados. As raízes estão fincadas, bem seguras, são fundamentos da Sabedoria (um dos vários nomes de Deus nas Escrituras).   A copa é voltada para as estrelas, os espaços siderais infinitos, do cosmos, do universo, do mundo. Os ramos, a folhagem, agem absorvendo as energias da natureza que nos é dada, o orvalho, a chuva, o sol que sazona os frutos.
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Enfim, estaremos bem plantados no universo enquanto nos mantemos abertos para todos os céus possíveis (como diria o evangelista Mateus); a vida aberta, portanto, para o infinito. O poeta bíblico chamaria essa disposição de desejo de plenitude, vida plena, completa, com todas as formas de bem-estar que cabem à dignidade do homem e da mulher, começando na criança que rompe no seu primeiro amanhecer.
Derval Dasilio

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A MÃE ANCESTRAL DE TODOS VIVENTES
Bem-vinda, Eva, minha neta. Nossa mãe ancestral — como também sua avó que nos deixou antes de você nascer –, traz no nome o peso da maternidade da vida que agora lhe cabe viver. Nós te recebemos na força da vida, e te amaremos por todos os motivos. A primeira madrugada da vida que alvorece em teu nascimento nos remete aos primeiros dias da humanidade com a mãe da vida concedendo-lhe o empréstimo que nunca vai cobrar, na escolha de seu nome. A primeira memória da vida está na infância cósmica de Eva.
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Nossa neta sempre nos lembrará da Fonte da Vida, da qual a “mãe de todos os viventes” bebeu. Nenhum acontecimento nos afastará do maravilhamento sobre a criança que chega, com seus significados ancestrais mais puros. Obrigado, meus Deus, porque podemos contemplar mais um dos teus inúmeros milagres.
Derval Dasilio

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A poesia do mundo inteiro nos olhos de Annabel

Quando Annabel, minha netinha nasceu, pensei: como vou lhe explicar a grandeza e os mistérios profundo do amor e  da beleza e da criação, se eu mesmo não sei o significado da palavra Deus e o tremendo mistério da vida? Olhando seus olhos azuis, que contemplarão o fulgor da luz, as miríades de cores e formas existentes, o brilho das estrelas. Seus ouvidos logo ouvirão os sons do universo, desde o canto dos pássaros aos ornamentos barrocos da música de Bach que amamos tanto. Olavo Bilac já dizia: “ora direis ouvir estrelas…”.  Mas sei que todos os mistérios  do mundo se escondem nesses olhos recém-iluminados pela vida inventada pelo Criador.

O poeta inglês Willian Blake disse certa vez que o mistério da vida poderia estar num simples grão de areia, e Rubem Alves sugeriu que simples gotas de orvalho, repousando numa flor, oferecem a visão do universo inteiro. Pensar no que os olhos de uma criança nascitura poderá contemplar é também pensar no  que ela mesma significa entre os seres criados. O mistério do homem e de Deus e suas grandezas originais, nas realidades que compõem o mistério do próprio Universo em todas as probabilidades, nasce com o bebê que ao ver a luz já emite o berro primal, reclamando: “qual é o meu lugar nesse mundo”?

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A TERRA É UM PLANETA BEM IDOSO
A natureza na Terra é esplêndida, maravilhosa. Há alguns anos atrás, estudos definiram o átomo como a menor molécula existente. Hoje há outras definições. Comparando-o a um estádio, todo o espaço entre o núcleo e as arquibancadas seria vazio, oco. Não há nada ali.  E tudo que existe é formado por milhares ou trilhares de átomos condensados ou compactados. Ou seja, tudo o que os olhos podem ver, na verdade é uma junção de bilhões de “nadas” juntos, tornando-se em alguma coisa. Essa é a base da Física Quântica; todas as probabilidades. Um universo de possibilidades ilimitadas. Contudo, “o que não é”, o misterioso, sempre se apresenta em números e valores maiores  (Davy Rodrigues).

Há os que  dizem que a Terra teria cerca de 4,6 bilhões de anos. Mas a história natural do planeta e sua geologia é muito mais complexa. São processos que levam bilhões de anos, juntamente com o processo de outros planetas. Surgem estrelas novas a cada momento. Estrelas antigas, extintas, ainda deixam seu brilho em bilhões de anos-luz percorrendo o espaço. O Universo é múltiplo, plural, rico em detalhes, além de estenso e ainda encontrar-se em expansão. De fato, está ficando cada vez maior. Astrônomos perscrutam o espaço sideral e acreditam que o Universo está se expandindo;  que todos os pontos do Universo estão ficando mais distantes uns dos outros à medida que o tempo passa. Não é que as estrelas e galáxias estão ficando maiores, na verdade o espaço entre todos os objetos é que está se expandindo com o tempo.
Derval Dasilio
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PARAÍSOS SÃO SEMPRE SONHADOS ANTES
Aqui nos deparamos com o destino humano, perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. Sonhamos com paraísos, construímos utopias. Como os sons e as tonalidades do Universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude. Paraísos são sempre sonhados para serem realizados.
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Paraísos são a Esperança. Precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está nos olhos da minha neta recém-nascida. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.
Derval Dasilio

OUTRAS CURTAS [CARTAS- AMOR E ÓDIO]

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AMOR E ÓDIO SÃO NOMES DOS CÃES DO INFERNO
Viver sob o signo do ódio é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro. Como duas estrelas gêmeas, numa reciprocidade exata; como dois olhos num mesmo rosto. Um, voltado para o infinito da comunhão, da solidariedade, da compaixão, ao lado do outro, indicando um abismo de destruição, rancor, desprezo, inimizade e prevenção contra o outro ou a outra.
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Sempre percorrendo os caminhos do amor, como disse Roberto Crema, vivemos à procura das cores do arco-íris do bem-querer, do bem-amar, do bem-viver, como quem desenha os degraus básicos da vida em busca da plenitude do ser. Por essa escadaria sobem e descem anjos e demônios, e seres humanos. O amor faz florescer a árvore do ser homem ou mulher. É o amor que faz germinar, florescer e frutificar a vida. Disse Jesus: “pelos frutos conheceis a árvore”. A flor foi feita para o fruto, os estados de consciência do amor nos levam para outros estágios da vida, até à felicidade plena. O Dalai Lama, perguntado sobre esse assunto, respondia: “O amor já está inteiro na semente, na flor e no fruto”.

AS APARÊNCIAS ENGANAM. COMO ENGANAM…

Diz a canção: “As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam, porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões. Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno. Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali, nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera. No insistente perfume de alguma coisa chamada amor” (Sérgio Natureza/Tunay).
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Uma interessante fábula chinesa conta que um homem garantia que seus escudos e lanças eram os melhores existentes. “Nada consegue atravessar meus escudos, e minhas lanças perfuram qualquer coisa, de pedra, madeira ou aço”, dizia o vendedor dessas armas antigas. Então, alguém perguntou-lhe: – “E o que acontece se suas lanças são lançadas contra seus próprios escudos?” Poderíamos comparar o amor e o ódio ao escudo e à lança, na defesa ou ataque de quem quer que seja.

LENHA NA FOGUEIRA DOS QUE CULTIVAM O ÓDIO
As condutas violentas confundem amor e ódio, irmãos gêmeos, embora opostos. Aparentemente, o ódio acende fogueiras que parecem não extinguir jamais, perseguido por um combustível que alimenta brasas e levanta labaredas que pretendem queimar tudo, por dentro ou ao redor das pessoas. Como se fora um alimento imperecível que se levanta de memórias e recordações de tempos que ficaram para trás, onde houve a comunhão, ou pelo menos intenções e sonhos de convivência fraternal. O ódio não é neutro. Ódios raciais, ódios quanto à alteridade sexual, ideológica, filosófica, teológica, cumprem essa ordem. O ódio, como brasas sob cinzas, aparentemente neutras, queima o ser por dentro.
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O amor, ao contrário, pode esfriar, na indiferença, enquanto corações viram gelo que não degela nunca. Paixões ardentes podem se converter em geleiras milenares, esfriando corações que nunca mais se aquecem. Uma vida toda pode esconder um sentimento amordaçado, congelado, na aparência de um ser externamente calmo e suave. Se isso acontece, não há forma nem há tempo para para se aquecer corações gelados invulneráveis ao perdão e à reconciliação, resta apenas chorar sob o cobertor.

O INFERNO, O AMOR E O ÓDIO
Viver sob o signo do ódio é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro. Como duas estrelas gêmeas, numa reciprocidade exata; como dois olhos num mesmo rosto. Um, voltado para o infinito da comunhão, da solidariedade, da compaixão, ao lado do outro, indicando um abismo de destruição, rancor, desprezo, inimizade e prevenção contra o outro ou a outra.
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Sempre percorrendo os caminhos do amor, como disse Roberto Crema, vivemos à procura das cores do arco-íris do bem-querer, do bem-amar, do bem-viver, como quem desenha os degraus básicos da vida em busca da plenitude do ser. Por essa escadaria sobem e descem anjos e demônios, e seres humanos. O amor faz florescer a árvore do ser homem ou mulher. É o amor que faz germinar, florescer e frutificar a vida. Disse Jesus: “pelos frutos conheceis a árvore”. A flor foi feita para o fruto, os estados de consciência do amor nos levam para outros estágios da vida, até à felicidade plena. O Dalai Lama, perguntado sobre esse assunto, respondia: “O amor já está inteiro na semente, na flor e no fruto..


Derval Dasilio
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DA ALVORADA AO ENTARDECER DA VIDA
Todos os dias começam com a alvorada. Choveu de madrugada, mas o claro da manhã faz tudo acordar ao redor. O galo cantou, e não tem jeito, o dia brota e as fontes continuarão a minar. Logo o céu azula na linha do mar, graças ao sol, e vem para clarear ainda mais o dia. Há sinais de eternidade acompanhando a alvorada. Também no rio que corre sempre para o mar, ou nas ondas que sempre batem nos rochedos, e depois se dissolvem na praia. E nasce o dia. Eternamente.
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Quem conseguiu a serenidade, apesar das agulhas cheias de veneno das quais temos que no desviar; apesar dos pesadelos e ingratidões que fazem chorar, e das ilusões incutidas no tempero da ganância, pode alegrar-se com a alvorada. Cartola cantou: Alvorada lá no morro / Que beleza / Ninguém chora / Não há tristeza / Ninguém sente dissabor / O sol colorindo é tão lindo / É tão lindo / E a natureza sorrindo / Tingindo, tingindo / A alvorada… /.

NA VELHICE VALORIZAMOS MAIS A BELEZA
O tempo alerta para as escolhas que devo fazer, em minha velhice. Uma delas é não acreditar no tempo, mas usá-lo. Com prazer.  Desse modo não penso na finitude, nem em escatologias. Assim, posso sentir a infinitude das coisas. Contemplar a eternidade das coisas belas, é um caminho bom para ser feliz, e para antecipar a plenitude da vida.
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Comparo a sensação de vácuo do tempo ao prazer indescritível de estar no meio das plantas, num bosque, em meio a árvores que brotaram, tantas vezes, mais de um século atrás. Cheirar o húmus por toda parte, ver orquídeas selvagens enlaçando os troncos onde se hospedou um dia uma semente trazida por uma ave qualquer. Ver e ouvir os pássaros que ali construíram seus ninhos, e depositaram ovos que fizeram eclodir novos pássaros sem interferência do tempo. E ouvir seus sons diferentes, do nascer do sol ao entardecer. Assim, posso contemplar o infinito, e concordar com Emmanuel  Lévinas: é de Deus que vem a ideia do infinito e da eternidade.

Derval Dasilio

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CARTAS E CANÇÕES [1]

Quando falamos de cartas deveríamos fazê-lo pensando no carteiro. Uma carta precisa de uma disposição do destinatário, a de descobrir as coisas que vêm dentro de um envelope, ou simplesmente redescobrir as intenções de quem escreveu. Precisamos pensar que cada palavra conta alguma coisa em primeiro lugar. No decorrer do delicioso filme “O Carteiro”, Neruda trava contato com o carteiro, que vai entregar as cartas que chegam trazendo notícias. Mario, o carteiro que lhe entregava as encomendas, queria convencer sua amada do seu amor, e foi aconselhado a escrever poesias. Pedia a Neruda para ensinar-lhe como fazer. E o poeta dizia: “escreva, explicar um poema significa a morte da poesia”. Poesia não se explica, tem que ser sentida. Como na magia, o que procuramos nas palavras não é o segredo, mas a fascinação e a inquietação que um poema provoca. A magia da poesia também não está no desvendar do segredo, mas no despertar de emoções que as palavras provocam.

Há uma linha forte ligando a poesia de Chico Buarque, que também esteve exilado na Itália durante a ditadura militar no Brasil. As afinidades prosseguem na canção, que é uma carta: Meu caro amigo me perdoe, por favor/ Se eu não lhe faço uma visita/ Mas como agora apareceu um portador/ Mando notícias nessa fita (Neruda também recebia discos, e dançava com os tangos de Gardel)/. Aqui na terra tão jogando futebol/ Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll/ Uns dias chove, noutros dias bate o sol/  Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta/ Muita mutreta pra levar a situação/ Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça / E a gente vai tomando…/ Que também sem a cachaça,/ Ninguém segura esse rojão./ Meu caro amigo eu não pretendo provocar/ Nem atiçar suas saudades,/ Mas acontece que não posso me furtar/ A lhe contar as novidades.

E as notícias impregnavam o papel. Quantos de nós recebemos cartas violadas pela censura, nessa época. As afinidades entre as canções, a poesia e as cartas, se acentuam.
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CARTAS E CANÇÕES [2]

Todavia, cartas de amor já motivaram uma revolução no Brasil. João Pessoa, governador da Paraíba, foi morto por João Dantas. Dias antes, a polícia do governador tinha invadido a casa de Dantas, sequestrara cartas de amor trocadas entre ele e a amada Anayde Beiriz. E o governador mandou divulgar as cartas publicamente, para ridicularizar o adversário. O crime passional detonou uma Revolução (1930), o presidente Washington Luís foi deposto, e Getúlio Vargas assumiu o poder inaugurando uma ditadura que durou 15 anos.
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Depois do crime, João Dantas foi preso e morreu na cadeia. Não se sabe com certeza se ele se suicidou ou se foi morto. Nunca declarara oficialmente os motivos que o levaram a assassinar o difamante, nem teve como… Contudo, com a prisão de João Dantas, Anayde Beiriz, a amada injuriada, refugiou-se numa casa de misericórdia, em Recife, e também morreu. Dizem que ela teria se suicidado. Quem diria! Cartas de amor provocaram uma revolução política que mudou o Brasil…
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CARTAS E CANÇÕES [3]
Mentiras voam com o papel ao vento, levando palavras ridículas de amores sofridos ou não correspondidos. O missivista chora as mágoas. Histórias tristes de amores acabados com lágrimas, evocações de falsa meiguice, cartas que contam histórias das dores do amor, corações despedaçados buscando consolo em palavras machucadas. Depois as reclamações da farsa que precisa ser esquecida, como descreveu Tito Madi, entre meus cantores preferidos na juventude: Rasguei suas cartas/ Queimei suas recordações./Mentiras, cansei de ilusões… Quem não rasgou uma carta, com raiva do ridículo, uma vez na vida?
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Nada, porém, supera a canção de Isaurinha Garcia sobre nossas ansiedades na espera do carteiro: Quando o carteiro chegou,/ E o meu nome gritou,/ Com uma carta na mão./  Ante surpresa tão rude,/ Nem sei como pude / Chegar ao portão./ Lendo o envelope bonito,/ No subscrito, eu reconheci/ A mesma caligrafia, que me disse um dia:/ Estou farto de ti. E, sem coragem para abrir a carta colada com saliva ou goma arábica, vêm as especulações: a carta contém notícias alegres? Serão tristes as coisas escritas ali?  
*
E o poeta, Paulo Vanzolini, termina sua canção: Quanta verdade tristonha,/ Ou mentira risonha, uma carta nos traz…/ E, assim pensando, rasguei tua carta/ E queimei, para não sofrer mais. Mas fica subentendido o ridículo, o remorso ou o arrependimento sobre o que não foi. E as perguntas: a história de amor teria terminado de outra maneira, se o destinatário tivesse lido “aquela” carta?
*
Mas foi o mesmo Vanzolini que acabou com essa choradeira amorosa, num realismo contundente: Chorei, não procurei esconder,/Todos viram, fingiram,/ Pena de mim, não precisava./ Ali onde eu chorei qualquer um chorava…/ Dar a volta por cima, que eu dei, quero ver quem dava./ Um homem de moral não fica no chão./ Nem quer que mulher venha lhe dar a mão./ Reconhece a queda e não desanima./ Levanta, sacode a poeira/ E dá a volta por cima.
*
Finalizando, aqui” todos bem”, escrevia Carlos Drummond Andrade concluindo uma carta à mãe: “Abençoe o filho e os netos e receba as nossas lembranças, nesta carta. Todo carinho e saudades…”

Derval Dasilio

 

 

 

CURTAS, UM POUCO MAIS…

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NÃO ACREDITO NO TEMPO

Tudo parece impossível, se não difícil de explicar, quando se trata de falar do tempo. Como explicar o êxtase, especialmente se for daqueles incomparáveis? Uma felicidade estética é inexplicável, o jeito é senti-la. O mesmo se dá com o tempo. Sentir o tempo é reconhecer a vida num cotidiano de simplicidade. Sem preocupações com o óbvio, posso descrever essa felicidade, quando muito, como sensação de estar ligado a outras existências alcançadas pela contemplação, pela curiosidade, pela ternura e a doçura de visões maravilhosas. Observar as cores de borboletas esvoaçantes, seus movimentos no meio das árvores, buscando o néctar que nunca se esgota, porque é infinito, permite-me gozar com o tempo que me é dado.

Lévinas disse que procuramos alhures a transcendência do infinito, quando de fato o infinito está no rosto do próximo, o ser-humano, o rosto de outro homem – ou de outra mulher –, com os quais já devíamos ter assumido as responsabilidades cabíveis quanto às suas vidas. E às nossas próprias vidas. Estar próximo de Deus e das plenitudes, vendo o rosto do próximo, significa dar sentido à duração do tempo, que talvez nem mesmo exista. Dar sentido à paciência de viver e sorver o tempo como a um vinho velho, em repouso por muitos anos para ficar melhor.

Suponhamos que para penetrar no mistério do tempo tivéssemos que esperar uma brecha numa muralha, ou galgar os muros de uma fortaleza, subir até a torre de onde se vê pradarias, bosques, colinas, córregos, flores do campo. Perguntaríamos sobre a brisa que sopra sobre os lagos, as serras, para depois sumir no mar. O tempo não passa de uma imaginação, como as perdas das coisas que queremos encontrar na noite das memórias, sabendo que não é mais possível uma busca do que nem existe mais. Amores perdidos para os quais nem mesmo adianta deixar a porta aberta. Nenhum deles entrará por ela, porque só a imaginação retira das sombras o que foi, antes, uma grande paixão. Um grande amor.

ONDE ESTÃO AS SENSAÇÕES DE ETERNIDADE…
Imaginemos que o tempo possa fazer a lua murchar, e que é preciso socorrer o luar, como dizia Tom Jobim, na canção: É preciso gritar e correr, socorrer o luar./Abre a porta pra noite passar,/ Olha o sol da manhã./ Olha a chuva,/ Olha o sol,/ Olha o dia a lançar serpentinas./Serpentinas pelo céu, sete fitas coloridas./Sete vias, sete vidas,/Avenidas pra qualquer lugar. O tempo não impede a chuva de molhar a terra, de encher o rio. De lavar o céu cheio de nuvens negras, e trazer de volta o azul dos dias de sol.O riachinho de água limpa não pode ser impedido de se lançar às águas calmas do rio.
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O jasmineiro continuará a florir de branco as tardes, mesmo aquelas tardes de Gardel, tardes gris, onde gotas úmidas banham flores perfumadas. As roseiras nem sabem que sua fragrância será exaltada pelos poetas, continuarão a presentear olfatos, mesmo os  contaminados pela poluição das cidades sem jardim. O tempo não impede amores puros, nem é dono dos pensamentos dos amantes. Nem impede os passarinhos de passear na calçada molhada, ou saltitarem nos jardins impregnados de primavera.
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O sol brilhando e fazendo o céu mais azul, as rochas refletindo os raios de sol com seus cristais, a areia fofa onde enterro meus pés, revelam-me lampejos de eternidade. O sol, o céu, o brilho dos cristais, não dependem do tempo. Duram dentro da eternidade. Sempre estiveram e sempre estarão ali, como contraponto à finitude humana. E só podemos sentir gratidão por sermos humanos e poder  contemplar essas realidades enquanto estamos participando das mesmas, observando algo que está fora do tempo. Tudo isso nos oferece a sensação da eternidade. A permanência das coisas belas estimula a vontade de contemplar ainda mais o que nos é dado ver, sentir e gozar, enquanto nos aproximamos ainda mais do infinito.

NA VELHICE VALORIZAMOS MAIS A BELEZA
O tempo alerta para as escolhas que devo fazer, em minha velhice. Uma delas é não acreditar no tempo, mas usá-lo. Com prazer.  Desse modo não penso na finitude, nem em escatologias. Assim, posso sentir a infinitude das coisas. Contemplar a eternidade das coisas belas, é um caminho bom para ser feliz, e para antecipar a plenitude da vida.
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Comparo a sensação de vácuo do tempo ao prazer indescritível de estar no meio das plantas, num bosque, em meio a árvores que brotaram, tantas vezes, mais de um século atrás. Cheirar o húmus por toda parte, ver orquídeas selvagens enlaçando os troncos onde se hospedou um dia uma semente trazida por uma ave qualquer. Ver e ouvir os pássaros que ali construíram seus ninhos, e depositaram ovos que fizeram eclodir novos pássaros sem interferência do tempo. E ouvir seus sons diferentes, do nascer do sol ao entardecer. Assim, posso contemplar o infinito, e concordar com Emmanuel  Lévinas: é de Deus que vem a ideia do infinito e da eternidade.

Derval Dasilio

ARQUIVOS – MEDITAÇÕES CURTAS

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ARQUIVO DE MEDITAÇÕES MAIS CURTAS

O BRASIL DE HOJE NA OBRA DE PAULINHO DA VIOLA
“Mesmo no disco mais triste de Paulinho, homenageando Lupicínio Rodrigues, que é ‘Nervos de Aço’ (1973), não há melodrama nas letras”, ressalta ela. “Há dor, tristeza, luto, mas nunca um transbordamento da emoção. Existe delicadeza, elegância, uma aceitação do sofrimento como parte da vida e um reconhecimento do desejo do outro.”

No livro, Negreiros apresenta essas conclusões iluminando versos que, de tão cantados, parecem ter perdido parte de sua força original.

Segundo a Eliete Eça Negreiros, ao examinar a obra de Paulinho da Viola, é como se fosse examinar “a alma do sambista”. “Paulinho conversa com sua criação, acho isso maravilhoso”, diz, e cita exemplos:

“Às vezes ele reclama da vida: ‘Ah! Meu samba, tudo se transformou/ Nem as cordas do meu pinho/ Podem mais amenizar a dor’, e aí o samba é amigo, confidente.”

Outras vezes, “reclama da indiferença do samba: ‘Meu samba não se importa que eu esteja numa/ De andar roendo as unhas pela madrugada’. Às vezes ele conta o que aconteceu com seu samba: ‘Meu samba andou parado até você aparecer’.”

“Na canção, a ideia de uma pele ferida é especialmente esclarecedora para a caracterização do estado melancólico, pois a ferida é precisamente a marca, o vestígio de algo que, embora tenha passado, ainda causa sofrimento. Ela é sinal do passado e da permanência da dor.

Há em algumas canções este singular paradoxo da esperança e da tristeza, segundo as exigências da realidade expressa no desconforto político de nossos dias. Por um lado, o poeta declara que a melancolia paralisa a sua alma, rouba-lhe a inspiração: ‘Eu gostaria de ver essa tristeza passar/ Um novo samba compor, um novo amor encontrar/ Mas a tristeza é tão grande no meu peito/ Não sei pra que a gente fica desse jeito’.

PAULINHO DA VIOLA E O ELOGIO DO AMOR
Eliete Eça Negreiros
EDITORA Ateliê, 2016
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O ÓDIO ACENDE FOGUEIRAS SEM PREVISÃO DE EXTINÇÃO

Diz a canção: “As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam, porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões. Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno. Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali, nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera. No insistente perfume de alguma coisa chamada amor” (Sérgio Natureza/Tunay).
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Uma interessante fábula chinesa conta que um homem garantia que seus escudos e lanças eram os melhores existentes. “Nada consegue atravessar meus escudos, e minhas lanças perfuram qualquer coisa, de pedra, madeira ou aço”, dizia o vendedor dessas armas antigas. Então, alguém perguntou-lhe: – “E o que acontece se suas lanças são lançadas contra seus próprios escudos?” Poderíamos comparar o amor e o ódio ao escudo e à lança, na defesa ou ataque de quem quer que seja.
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As condutas violentas confundem amor e ódio, irmãos gêmeos, embora opostos. Aparentemente, o ódio acende fogueiras que parecem não extinguir jamais, perseguido por um combustível que alimenta brasas e levanta labaredas que pretendem queimar tudo, por dentro ou ao redor das pessoas. Como se fora um alimento imperecível que se levanta de memórias e recordações de tempos que ficaram para trás, onde houve a comunhão, ou pelo menos intenções e sonhos de convivência fraternal. O ódio não é neutro. Ódios raciais, ódios quanto à alteridade sexual, política, ideológica, filosófica, teológica, cumprem essa ordem. O ódio, como brasas sob cinzas, aparentemente neutras, queima o ser por dentro.
[Derval Dasilio]

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UM MERGULHO NO MUNDO SOMBRIO DESTE MOMENTO
“Mesmo que eu andasse pelo vale da morte, não temeria mal algum” (Salmo 23). Se olharmos à nossa volta, constatamos que a morte é a grande senhora de tudo ao redor, o que é criado, o que é real e histórico, pois tudo é submetido às leis da termodinâmica. A entropia demonstra que a vida vai gastando seus acúmulos energéticos, declinando até morrer.Escrevia Leonardo Boff: “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se auto-regula e se reproduz: é a vida”.
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Uma vez, Carl Jung, porém, permitindo um mergulho nas profundezas do ser, admite uma reflexão aceitável para uma força e energia criadora a quem nos rendemos, como organizadora do caos. Uma Energia que compreende a participação humana na continuidade e utilização dessa força e dinâmica na obra da criação dentro do caos.Há um tempo para todas as coisas… As forças caóticas ainda não completaram seu serviço desorganizador, quanto ao futuro da humanidade (Nilton Bonder).
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Portanto, em relação ao equilíbrio do campo coletivo, humano, devemos ser profundamente observadores, atentos ao sistema de valores externos à nossa mente organizadora, que revele nosso estado coletivo sujeito a negar a vida, como indicou   Jesus: vida plena e eterna, com a qual ele se identifica como Pastor e condutor.
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Porém, isso não explica nem resolve a desordem. Apenas descreve o processo de seu surgimento do caos de cada dia. Ela continua misteriosa. Não fora assim, a experiência acumulada pela humanidade, pretenderia o oitavo dia da Criação, sem avaliar os danos sobre a responsabilidade ética e a solidariedade com os seres da natureza que existiram antes de nós e continuarão a existir no futuro (Euler Westphal). O mundo finito luta contra a vida infinita. Eis a lição para o momento tenebroso que experimentamos hoje.
[Derval Dasilio]
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O MAPA PARA ENCONTRAR UM TESOURO DE VALOR INCALCULÁVEL
A construção da vida pode ser explicada assim. Só quem é machucado, quem se incomoda por alguma coisa que deve ser mudada ou acrescentada, quem sofre a falta de algo importante no mundo, cria uma obra permanente e exemplar para o resto do mundo. Os gestos, os sorriso, os olhares, falam mais que mil palavras… Um gesto de amor, de compaixão ou ternura, vale para a vida toda.
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Para cada um de nós, partilhando do sofrimento do outro ou da outra, é solidificar o que vem a ser parte de um tesouro que ainda vai ser encontrado. Ou, no mínimo, legado e transmitido a outros. O mapa desse tesouro conduz-nos para viajar por ambientes fechados, cavernas profundas, e espaços abertos infindáveis; leva-nos a sentir calor e frio, ver a luz e escuridão, ouvir palavras e silêncios, compartilhar comunhão e solidão, elaborar significados para a vida e para a morte. Vale a pena sofrer por amor a uma bela causa?

[Derval Dasilio]
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O REINO É UM DOM INCOMPARÁVEL
O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica. O Reino alcança em primeiro lugar o oprimido.
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Na antiguidade bíblica, cidades-estado eram a própria nação, enquanto concentravam governantes, negociantes e banqueiros… e trabalhadores costumeiramente diaristas: “Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles”  (Isaías 1,1;10-20). Alguma semelhança com os nossos dias?
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O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas: aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores — representantes da sociedade excludente —, flageladores de crianças, mendigos e doentes mentais. Porque estes podem contar somente com o Reido de Deus e a sua Justiça.
[Derval Dasilio]
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EXCLUÍDOS SÓ PODEM CONTAR COM O REINADO DE DEUS
O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte social, econômica, espiritual, cultural. O Reino é dado também aos excluídos da saúde com qualidade; aos dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado.
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A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis.  Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo. Defesa da vida é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural. É consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça.
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A sociedade humana reclama salvação, contra todas as mortes.  Investir na consciência, na necessidade de transformação do mundo, é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, segundo o evangelho de Jesus Cristo.
[Derval Dasilio]
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AMOR E ÓDIO SÃO NOMES DOS CÃES DO INFERNO
Viver sob o signo do ódio é como viver à espreita, com reservas, perdidos na imensidão de uma noite interminável. A noite nos isola, e nos impede de sonhar a amizade, fraternidade e solidariedade. O amor e o ódio, como duas estrelas de fogo no céu astronômico da alma, permitem-nos ver dentro de nós, tornando possível um olhar interior que torna visível o que há de melhor e pior que se ocultam nas sombras do nosso ser verdadeiro. Como duas estrelas gêmeas, numa reciprocidade exata; como dois olhos num mesmo rosto. Um, voltado para o infinito da comunhão, da solidariedade, da compaixão, ao lado do outro, indicando um abismo de destruição, rancor, desprezo, inimizade e prevenção contra o outro ou a outra.
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Sempre percorrendo os caminhos do amor, como disse Roberto Crema, vivemos à procura das cores do arco-íris do bem-querer, do bem-amar, do bem-viver, como quem desenha os degraus básicos da vida em busca da plenitude do ser. Por essa escadaria sobem e descem anjos e demônios, e seres humanos. O amor faz florescer a árvore do ser homem ou mulher. É o amor que faz germinar, florescer e frutificar a vida. Disse Jesus: “pelos frutos conheceis a árvore”. A flor foi feita para o fruto, os estados de consciência do amor nos levam para outros estágios da vida, até à felicidade plena. O Dalai Lama, perguntado sobre esse assunto, respondia: “O amor já está inteiro na semente, na flor e no fruto”.

Derval Dasilio

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DEUS COMO EXPRESSÃO DA ALMA PROFUNDA
Gaston Bachelard lembrava: é preciso descer ao fundo do ser, sem preocupar-nos com a tagarelice da dúvida. A alma em devaneios antigos e recentes emerge das profundidades, reconciliando o passado com o presente. Quanto mais profundo é o ser, mais luzes serão necessárias para iluminar os abismos da existência. Citando Henri Bosco, disse também: “para exprimir a alma profunda do ser, me vinha a ilusão de não mais encontrar-me no mundo real, composto de limo, pássaros, plantas e arbustos vivos, no próprio seio da alma, cujos movimentos e calmarias se confundem com minhas variações interiores”.

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Não se trata de querermos nos apossar do ser de Deus, mas de sermos depositários das qualidades amorosas de Deus. Ou seja, permitir que a bondade, a paciência, a misericórdia, a compaixão, a solidariedade, o cuidado, a ternura, suplantem as heranças ancestrais, os atavismos dominantes no ser ainda sem a consciência de Deus: a megalomania, o ódio, o rancor, a belicosidade, a crueldade, a maldade, a inveja, a ganância de poder e de bens, e a dissimulação, são coisas velhas que insistem em sobreviver em nós.

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Ocorreu uma coisa com o profeta Elias, que procurava intensamente a experiência de Deus, orando. Então, uma voz lhe falou: “Sai de onde estás e coloca-te diante da montanha. Um terrível furacão deslocava a rocha e quebrava os rochedos,  mas Yahweh não estava no furacão. Depois, houve um terremoto que abria fendas no solo, mas Yahweh não estava no terremoto. Em seguida, um incêndio de grandes proporções, mas Yahweh não estava no fogo. Depois do fogo soprou uma brisa mansa, cuja suavidade era incomparável. E, então, lá estava Deus.
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DISSE JESUS: ESTOU ONDE QUERO QUE  VOCÊS ESTEJAM
O que um budista indiano chama “ahimsa” um israelita bíblico, como Jesus, chamaria de “rahamim”. É a mesma atitude de compaixão, originalmente “não-machucar” o outro. Uma atitude que se sobrepõe à vontade de dominar o outro a qualquer custo, pisar no pescoço de alguém para passar à frente, entrar na realidade do outro para dominá-lo. O hebreu usa a palavra “rahamim” (“ter sensibilidade, sentimentos”, “ter entranhas”, “ter coração”: o coração é sede dos melhores sentimentos, pensa o israelita bíblico), para identificar a compaixão de Deus pelo oprimido, pobre, aflito, despojado, sem-posses, sem-nada. Deus vê seus filhos com extremo cuidado, acolhendo-os sempre com amorosa compaixão.
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Os planos do ser-pessoa são diferentes, por si mesmos, em suas variedades, manifestações, diferenças e diversidades. É preciso reconhecer a beleza do ser em si mesmo, e respeitá-lo. Ser unido com o Pai, como Jesus disse (“onde eu estou, quero que vocês estejam”), passa a ser o mais importante que tudo. Isto é, como disse Jesus, “eu e o Pai somos um, e vocês devem ser unidos conosco, nos gestos e nas atitudes”. Jesus quis compartilhar as qualidades paternais de Deus com seus irmãos, que somos nós, no relacionamento com todos os outros, indistintamente, sejam quais forem aqueles outros.

 

A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA

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Lucas 12,32-48  

A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos aparentes e nem com esperanças imediatas. Ingmar Bergman disse: “a fé é uma aflição dolorosa”. Para muitos, no entanto, não é. O cristianismo simbólico, ou nominal, dispensa a fé, e desconhece a esperança, envolvido com o propósito estatístico, propositista, mas sem essência. Não é inclusivo. Não considera direitos humanos; despreza e alija pessoas da vida de fé.

Esquece crianças, jovens e idosos sob forte risco social; pobres, doentes e famintos condenados à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Este hedonismo patológico experimenta a violência da competição e da ganância em toda parte, fechando o futuro. Como disse o papa Francisco, nos extremos se nega a participação criativa aos jovens e a transmissão da sabedoria aos anciãos.  

O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica.

O Reino é dado aos excluídos da saúde com qualidade; aos dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado.

O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas: aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores — representantes da sociedade excludente —, flageladores de crianças, mendigos e doentes mentais.

“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles”  (Isaías 1,1;10-20).

A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época. Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo.

Defesa da vida é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural. É consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça. A sociedade humana reclama salvação, no desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte. Todas as mortes.  Investir neles é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, segundo o evangelho de Jesus Cristo.

À BEIRA DE ABISMOS OCEÂNICOS

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MEUS AMIGOS

Na beira do abismo olhei para baixo, e vi que precisava perguntar: o que existe mais na vida que impeça de soltar-me no vazio e despedaçar as esperanças — quando as rochas das seguranças se romperam e se fragmentaram em mil pedaços? Que estava acontecendo comigo, quando sufoquei a vida que amava, permitindo que os abutres dos púlpitos, e suas togas negras, e as hienas do poder total, tomassem conta de mim?

Por que me deixei ser invadido pelo fastio, pelo nojo, pela negligência para comigo mesmo, pela depressão, e por que me entreguei à fraqueza e à debilidade, faltando-me forças para lutar e vencer as opressões de cada dia? Por que me entreguei ao negrume, à fumaça que acobertava as debilidades que me ofuscavam, e que me venciam, retirando a esperança de claridade?

Agora, estou ao lado de quem me estende a mão e me oferece o…

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