A poesia do mundo inteiro nos olhos de Annabel

15/12/2011

Minha netinha nasceu. Como vou lhe explicar a grandeza e os mistérios profundos do amor e  da beleza e da criação, se eu mesmo não sei o significado da palavra Deus e o tremendo mistério da vida? Olhando seus olhos azuis, que contemplarão o fulgor da luz, as miríades de cores e formas existentes, o brilho das estrelas. Seus ouvidos logo ouvirão os sons do universo, desde o canto dos pássaros aos ornamentos barrocos da música de Bach que amamos tanto. Castro Alves já dizia: “ora direis ouvir estrelas…”.  Mas sei que todos os mistérios  do mundo se escondem nesses olhos recém-iluminados pela vida inventada pelo Criador.

O poeta inglês Willian Blake disse certa vez que o mistério da vida poderia estar num simples grão de areia, e Rubem Alves sugeriu que simples gotas de orvalho, repousando numa flor, oferecem a visão do universo inteiro. Pensar no que os olhos de uma criança nascitura poderá contemplar é também pensar no  que ela mesma significa entre os seres criados. O mistério do homem e de Deus e suas grandezas originais, nas realidades que compõem o mistério do próprio Universo em todas as probabilidades, nasce com o bebê que ao ver a luz já emite o berro primal, reclamando: “qual é o meu lugar nesse mundo”?

A natureza na Terra é esplêndida, maravilhosa. Há alguns anos atrás, estudos definiram o átomo como a menor molécula existente. Hoje há outras definições. Comparando-o a um estádio, todo o espaço entre o núcleo e as arquibancadas seria vazio, oco. Não há nada ali.  E tudo que existe é formado por milhares ou trilhares de átomos condensados ou compactados. Ou seja, tudo o que os olhos podem ver, na verdade é uma junção de bilhões de “nadas” juntos, tornando-se em alguma coisa. Essa é a base da Física Quântica; todas as probabilidades. Um universo de possibilidades ilimitadas. Contudo, “o que não é”, o misterioso, sempre se apresenta em números e valores maiores  (Davy Rodrigues).

Há os que  dizem que a Terra teria cerca de 4,6 bilhões de anos. Mas a história natural do planeta e sua geologia é muito mais complexa. São processos que levam bilhões de anos, juntamente com o processo de outros planetas. Surgem estrelas novas a cada momento. Estrelas antigas, extintas, ainda deixam seu brilho em bilhões de anos-luz percorrendo o espaço. O Universo é múltiplo, plural, rico em detalhes, além de estenso e ainda encontrar-se em expansão. De fato, está ficando cada vez maior. Astrônomos perscrutam o espaço sideral e acreditam que o Universo está se expandindo;  que todos os pontos do Universo estão ficando mais distantes uns dos outros à medida que o tempo passa. Não é que as estrelas e galáxias estão ficando maiores, na verdade o espaço entre todos os objetos é que está se expandindo com o tempo.

Aqui nos deparamos com o destino humano, perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. Sonhamos com paraísos, construímos utopias. Como os sons e as tonalidades do Universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude. Paraísos são sempre sonhados para serem realizados. Paraísos são a Esperança. Precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está nos olhos da minha neta recém-nascida. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.

http://www.youtube.com/watch?v=v6MKOY9x_ds&feature=related

Foto do perfil: Ludmila Dasilio [2007]

5 Responses to “A poesia do mundo inteiro nos olhos de Annabel”

  1. sergio sena Says:

    Se eu fosse arriscar um texto referência sua, ante esse espetáculo da vida, para o artigo, diria que foi este: “Quando vejo os céus, obras dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparastes, que é o homem mortal para que te lembres dele; o filho do homem para que o visites?Contudo, pouco menor do que os anjos o fizeste e , de glória e honra o coroaste.”(Sl.8:3-5). É perfeito porque nele temos o questionamento e a constatação da vida e do universo que se repete em nós e também a certeza redentora que vem. Annabel, como todas outras crianças, traz esse recado.
    Sr. Derval, parabéns pela neta!

    NEle , em quem somos um.

  2. derwal Says:

    Escrevi para a avó de Annabel, Maria Lucia, comemorando seu aniversário, esta crônica sincera:

    A Árvore

    “Como a árvore plantada junto às águas
    que escorrem da Fonte da vida”. Salmo 1

    Quis homenagear Maria Lúcia, minha mulher, no seu aniversário. Então escrevi esta crônica: Galgar aos céus, mergulhar no infinito, descobrir o que está por trás das estrelas… é tudo que desejamos. Queremos ser felizes… Importantes pensadores, em todos os tempos, destacaram essa busca de sentido que está no ser humano, homem e mulher; queremos descobrir, desvendar, o eixo em torno do qual nos movemos internamente. Que motor faz girar esse eixo? Para muitos, trata-se de uma dinâmica interior, profunda. Seria a afirmação da vida imortal, sobremaneira. Princípio de frustração. Transcendência duvidosa. Não é possível manipular a realidade a nosso favor, quando se trata das potencialidades que o desejo aponta, no entanto. Como negar que nosso corpo já começa a morrer, finitos que somos, limitados, desde o dia em que nascemos. O desejo de plenitude, ser um ser humano completo, é o apelo profundo de nossa interioridade. Cada um de nós é um Adão e uma Eva, encantados com os mistérios da “árvore do conhecimento”, mas a árvore que está no meio do Paraíso é a “árvore da vida”. Então, toda felicidade, bem-estar, prazer de viver, já nos indicaria a plenitude que pretendemos alcançar, que pode e deve começar aqui.

    Talvez seja isso que o primeiro Salmo da Bíblia queira nos apontar: a vida como uma árvore plantada à beira do riacho: será bem alimentada, capaz de crescer e dar bons frutos. Um discurso lindíssimo da poesia hebraica que convida a observar a Criação e o sentido da felicidade desejada. Seres cósmicos, do grande universo, aparecem personificados no cotidiano humano com dinamismos sobre-humanos, nos salmos e nos escritos sapienciais da Bíblia Hebraica. Que significa uma árvore forte, bem plantada, produtiva, senão uma vida harmonizada com o sentido das coisas do universo, desde a terra aos espaços estelares ainda não alcançados, embora sondados pela curiosidade do conhecimento? Uma árvore plantada ao longo de um córrego de águas limpas não é uma árvore plantada à beira do abismo, em terreno sujeito a deslizamentos destrutivos. O poeta construtor deste salmo traz inspiração para nossas vidas de caminhantes pelas ruas, dobrando as esquinas das cidades em que vivemos. Está preocupado com os sentidos das fontes cristalinas que nunca secam, borbulhando sabedoria que corre mansa sem preocupações com o tempo; fontes que dessedentam os viajantes peregrinos em busca do infinito, descontentes com o mundo imediato e suas paisagens devastadas pela destruição, pela violência do ser humano contra si mesmo. As imagens nos servem quando trafegamos em avenidas largas ou estreitas; ou andamos de metrô, ônibus ou automóvel; quando encontramos pessoas rindo ou chorando, cantando ou pedindo alguma coisa, nas praças, nas ruas destinadas aos camelôs ou ao comércio mais nobre das boutiques ou onde estão os shoppings centers. O que se vê é que as pessoas querem ser felizes.

    As imagens bíblicas, poéticas, nos remetem a símbolos inescapáveis, fundados no chão da vida. São símbolos (symbolo = o que une, no grego) daquilo que nos dá força para vencer tempestades, furacões, terremotos, que poderiam abalar nossa busca de plenitude. As raízes dessa árvore se afundam na terra, mãe de todas as coisas, impedindo com sua força que a destrutividade dos acontecimentos desagregadores da vida nos esmaguem ou nos arranquem do solo onde fomos fundados. As raízes estão fincadas, bem seguras, são fundamentos da Sabedoria (um dos vários nomes de Deus nas Escrituras).

    A copa é voltada para as estrelas, os espaços siderais infinitos, do cosmos, do universo, do mundo. Os ramos, a folhagem, agem absorvendo as energias da natureza que nos é dada, o orvalho, a chuva, o sol que sazona os frutos. Enfim, estaremos bem plantados no universo enquanto nos mantemos abertos para todos os céus possíveis (como diria o evangelista Mateus); abertos, portanto, para o infinito. O poeta bíblico chamaria essa disposição de desejo de plenitude, vida plena, completa, com todas as formas de bem-estar que cabem à dignidade do homem e da mulher.

    Falando pelo que entendo, há valores importantes a serem considerados, quando somos convidados a observar a vida em busca da Plenitude e da Sabedoria. Isolados no egoísmo e na idolatria consumista, inclusive de religiões e variações eclesiásticas de mercado que se impõem nos nossos tão breves dias, nunca entenderemos o que Deus faz em nós… como faz da árvore bem plantada e ao mesmo tempo voltada para a totalidade da vida. Onde nos encontraremos com Deus? Diria mais: quem quer a verdadeira experiência de Deus não vai procurar templos ou museus, apenas contemplando os símbolos que ali estão, por mais belos que sejam. Quem quer encontrar Deus, em sua plenitude, vai buscá-lo na vida, no cotidiano. Também não custa trazer à mesa da comunhão os que chegam “de todo lugar que se tem pra partir”(Edu Lobo). Ou, de outro modo, percorreremos os caminhos que existem, iremos recebê-Lo nos lugares onde chegam homens e mulheres de todas as partes, de todos os lugares. Nas rodoviárias, nos portos e aeroportos da vida. Hoje é um belo dia para esse encontro.

    Que é que você pensa? Estamos de acordo?


  3. Querido Mestre Derval Dasilio, nao ha palavras que sejam capazes de expressar minha dupla honra em ser citado por ti. Tu sabes o quanto admiro sua alma. Que o Criador cubra essa criança de Vida, Luz e Paz! Um forte abraço!

  4. derwal Says:


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