CALENDÁRIO DO ANO A – 2011
28/12/2010
Devemos remeter os usuários deste Blog de Liturgia para o site
LITURGIA – IGREJA PRESBITERIANA UNIDA DO BRASIL
http://www.ipu.org.br/outubro_2010.html
Esta assumiu a publicação do trabalho deste autor, a partir
do Tempo Litúrgico do ADVENTO (Ano A). Todo material
aqui publicado será encontrado lá, em primeira mão. Por exemplo:
DOMINGO DEPOIS DO NATAL
Isaías 63,7-9 – Tu és o Pai que nos protege
Salmo 148 – Louvai-o, ele liberta crianças e jovens
Hebreus 2,10-18 – Ele participou da nossa condição
Mateus 2,13–23 – O massacre dos inocentes
MASSACRE DOS FAMINTOS E DESNUTRIDOS
“Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito”. No meio do
tempo de Natal o Evangelho fixa nossa atenção numa realidade muito
humana da vida de Jesus. Como todo ser humano, ele contou com uma
família que o criou… Teve um pai e uma mãe humanos, um ambiente
comunitário no qual foi se desenvolvendo até chegar a ser adulto, que o
modelou e preparou para realizar sua missão. No livro deuterocanônico
de Ben Sirac (Sirácida), dos livros sapienciais na Septuaginta (Bíblia
Grega), encontramos ensinamentos para se saber viver na presença de
Deus e na comunidade humana.
Jesus nasce também debaixo de um decreto cuja intenção
primeira era a de mobilizar os meios de arrecadação tributária para
conhecer os números, identificar os possíveis devedores de impostos.
Engordavam-se os cofres de um império cruel, desumano, insensível à
miséria dos milhões de oprimidos, desapoderados; sem dignidade,
cidadania, escravizados pelos sistemas econômicos, apoiados pela
religião dominante e pela política de seu país. Como hoje, prevalecia o
deboche dos opulentos, dos controladores da sociedade e seus
coquetéis de absinto e heroína, e comprimidos mágicos de ecxtasy, que
os embriagam e excitam enquanto vivem a hipocrisia da abundância (e
haja abundância para satisfazer a sociedade do lixo e do desperdício).
Cabe-nos observar a “luz” que se derrama sobre os “impérios
sagrados” da economia mundial e suas impiedades estruturais (Mt 2,7),
mantenedores das desigualdades. Augusto, imperador, era considerado
“divino”, um deus; alguém que quer ter o poder “sagrado” de controlar,
submeter, recolher tributos, royalties, taxas de empréstimos, de todos
os habitantes da terra (oikumene); que, no seu entender de governante
mundial, lhe devem e têm que pagar, irrevogavelmente.
“A história da humanidade espera com paciência o triunfo dos
humilhados” (Tagore). Vimos no GloboNews a maravilhosa mineira
Adélia Prado. Perguntada sobre “o que ela espera…”, numa confissão
comovente, respondeu com longa reflexão sobre o sentido da vida:
“Espero Jesus!”. Meu Natal, passarei refletindo sobre as sociedades
herodianas de nosso tempo: se pudessem, matavam o “menino semnada”
no berço… mais uma vez. Mas a Esperança de vida, como a
borboleta, tem asas e muitas cores… Jesus nasceu e sobreviveu aos
determinismo sociais da época. A fome e a miséria eram o cenário onde
nasciam os menininhos pobres e carentes como ele, sem nenhum
perigo para a sociedade que os excluía imediatamente, dispondo-se a
exterminá-los. Logo depois, para eliminá-lo, essa mesma sociedade
promovia ou apoiava um genocídio, o mais clamoroso das histórias do
Evangelho. Os meninos do tempo de Jesus nasceram condenados à
morte desde o nascimento. Hoje, conhecemos seus irmãozinhos, em
todo o mundo, que nascem também com essa condenação, juntamente
com o menino nascido na estrebaria e embalado num berço
improvisado num cocho.
A Natalidade de Jesus de Nazaré é um convite para
mergulharmos na realidade que se apresentava ao menino que irrompe
do ventre de sua mãe adolescente, gravidez sob condenação social,
numa estrebaria, um sem-terra, sem-teto, sem-nada, à semelhança das
crianças que nascem no terceiro mundo, e no Brasil (IBGE, entre 53
milhões de brasileiros e brasileiras constantes na escala social dos que
se encontram, no mundo da economia, e do consumo de bens
essenciais: alimentos, habitação, trabalho, transporte, lazer, na
pobreza e na miséria total. Se Jesus nascesse aqui, sob a opressão dos
sistemas econômicos, seria um dos bebês que vêm ao mundo devedor
de milhares de dólares ao FMI, BID, G-8, (cf. dados do IPEA). Mas que
não se esqueça: ao mesmo tempo, seria credor de dívidas sociais desta
sociedade dita cristã que lhe deve tudo e não quer pagar. Não há
Procon que resolva…
Vivemos uma cultura sitiada pelo dinheiro (Jurandyr Freire). A
sociedade herodiana, sem se importar com custos e sacrifícios impostos
à maioria dos jovens, sob cenários intermitentes de violência e exclusão
social, decreta a morte das utopias, e tacha de ilusórias as lutas por
um mundo em que caibam as crianças que nasçam para um mundo
em que prevaleçam os valores da justiça, igualdade e solidariedade.
Porém, sobrepõe-se o egoísmo das elites privilegiadas que também
sustentam a economia do narcotráfico – postura que é produto do
absoluto cinismo – das muitas pessoas e instituições que vemos
participando de atos “aristocráticos”, fazendo declarações e defendendo
hipocritamente o fim do poder paralelo dos chefões do tráfico de drogas.
Hélio Luz incomodava desembargadores, magistrados, figurões da Tv, e
políticos do alto clero, anos atrás, quando denunciava algo semelhante.
A Natalidade do Senhor é tempo de esperança porque Deus
resgata o povo pobre e sem valor e o chama para o centro da história da
salvação. A leitura em Mateus nos apresentará a concepção de Jesus
por obra do poder divino. Mas é também por esse poder que a família
do menino nascido de mulher sobreviverá aos poderes políticos,
econômicos e religiosos atrelados para o extermínio da esperança: o
genocídio social, que parece não cessar nunca. Estudos feitos por
paleopatologistas, analisando a época de Jesus e dos apóstolos,
indicam que doenças infecciosas e desnutrição eram generalizadas. Por
volta dos 30 anos a maioria das pessoas sofria de verminose – 50% dos
restos de cabelo, encontrados nas escavações arqueológicas tinham
lêndeas de piolhos –, seus dentes tinham sido destruídos, e suas vistas
arruinadas. É possível, por exame do DNA, identificar doenças
endêmicas, e mesmo identificar os resultados da desnutrição e da fome,
naqueles dias. Realidade que não mudou para 2 bilhões do planeta,
entre eles mais de 1 bilhão de crianças morrendo por causa da fome e
desnutrição.
Com moradias precárias, sem condições sanitárias adequadas;
sem assistência médica; com má alimentação, os desfavorecidos faziam
parte de um mundo que precisava ser implodido, e o quadro romântico
que um leitor ou uma leitora da Bíblia em nossos dias faz dos ouvintes
de Jesus, não faz justiça ao menino nascido numa estrebaria. Sombrio,
o natal de Jesus. Todos os anos a ONU (Organização das Nações
Unidas) publica índices de “qualidade de vida” (IDH), e nosso país,
entre os de economia mais sólida no mundo, sempre está entre os
últimos desse planeta. Onde estaria essa pobreza que não poucos
admitem? A eles, os pobres e miseráveis, o Reino de Deus e a sua
justiça eram anunciados e ofertados por discípulos e apóstolos de
Jesus Cristo. Ele está entre os milhões de miseráveis e excluídos de
nossa época (Mt 25: “Quando te vimos? Me vistes quando eu estava
doente… nú… com sede, fome e frio…”).
—
Derval Dasilio
Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil
Autor do livro O DRAGÃO QUE HABITA EM NÓS (Metanoia-2010)
Blog: www.derv.wordpress.com
Artigos na Ultimato Online
http://www.ultimato.com.br/ultimas/autor/derval-dasilio/#